POEMA MESTIÇO por MARCELO CANELLAS
Os pés de Pablo ainda palmilham
n’alguma calle escura de Santiago.
Mas cem sonetos de amor
não calam dez milhões de canções DESESPERADAS
na costa do Pacífico.
E a neve alva do Peru
beija o Atlântico
numa pororoca de saliva andina.
Bocas de rumba, merengue, tango e milonga:
Lobão saiu na bateria da Mangueira.
Da Apoteose a voz da América ecoa
numa praça de Manágua.
Pancho Villa e Guevara te queriam assim:
Mesmo que, Montezumas, não tenhamos cavalo.
Mesmo que, Margaridas, não tenhamos terra.
Mesmo que, índios, não tenhamos nação.
É que a virgem nunca foi ao quarto do
Cardeal Primaz.
Ela é vista três vezes ao dia
em Quixadá.
É que a América Latina de baixo
e a América Latina de cima
mordem a mesma maçã na linha do Equador.
E porque o Brasil
é um gigante polígamo.
e porque, El Salvador,
um anão rebelde,
nossas unhas esculpem
este pacto mestiço.
*Este poema levou o primeiro lugar do concurso Felippe D’ Oliveira em 1988.
MARCELO CANELLAS