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* SINA AUTORALAS MULHERES QUE DIZEM NÃOMEL INQUIETA OPINA

Lara por MELINA GUTERRES

By Melinaa Z. Guterres
14 de julho de 2017 5 Min Read
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Era inverno, fim de tarde quando Lara tomou seu chocolate quente sentada na varana da casa da família na serra. As pernas sobre a cadeira a ajudavam a movimentar o balanço com pelego. Nos pés, as botas marrons que adorava.

A neblina escondia um tanto do verde a sua frente mas não tirava a beleza do dia que amanhecia. Poderia ser só mais um dia, mas era domingo, logo chegariam seus primos, tios e toda a família. Seu namorado ainda dormia, era o quarto que apresentava pra família. O sol se abria ao alcance dos seus pés naquele precipício a sua frente. Se fosse um pássaro sobrevoaria aquele lugar sem se cansar. Mas o que estava lhe tirando o sono era aquele pedido para noivar, justo agora que estava encantada com um colega no trabalho. Seis anos de namoro e nunca sentiu algo parecido… Era o ditio frio na espinha, contar as horas para se ver, as trocas de olhares, mensagens, qualquer espécie de contato. Ela sempre foi fiel mas Tobias a fazia sentir-se criança, uma menina na pré-escola vivendo um amor platônico que não se conta nem em papel de carta. Ela estava visivelmente apaixonada e querendo se jogar naquele precipício, voar ao encontro de Tobias, fugir da família e do namorado que desconfiava que a pediria em casamento naquele final de semana. E o que ela diria? Tobias sequer sabia do amor dela, o máximo de ousadia que ela fez foi enviar um coração no whatsapp junto com um boa noite, e ainda assim morrendo de culpa emedo de não ser correspondida, mas ele mandou um coração e um beijo de volta, o que foi um alívio, talvez ele sentisse algo, talvez sentisse o mesmo, talvez só seja educado. Ela não conseguia parar de pensar no dia em que ele chegou atrasado por conta da chuva. Os cabelos molhados caindo sobre seu rosto, a camisa branca e aquele olhar de preocupação. Ela levou prontamente uma toalha de rosto e um café pra ele se aquecer. Na hora do intervalo ele agradeceu enquanto fumavam um cigarro. Ela que pensava em parar de fumar, não via a hora da pausa pra encontrar com ele. Claro que a essas alturas já havia revirado todas as redes sociais dele, canais de busca, ela era praticamente um Google. Ele tinha um filho de 7 anos, estava separado há dois, morava com uma irmã, já tinha vivido 2 anos em Londres, 1 em Barcelona. Nunca se casou mas morou junto 2 vezes na vida, etc. O mais importante é que ele estava solteiro e ela não… ela estava quase noiva, seis pais querendo netos, suas primas fazendo pressão… Só sua melhor amiga sabia daquele sentimento e foi ela que a encorajou a ter a atitude que teve..

Antes de sair em viagem, Lara foi até a mesa dele e deixou um bilhete com um escrito:

– Quer jogar sem tecnologia?

Ele respondeu e jogou em forma de bolha de papel a resposta na mesa dela.

– Qual o nome do jogo?

E assim começaram um provocativo diálogo que acabou com Lara secando os cabelos num quarto de motel.

Isso é o que adoraria ter feito se tivesse escutado os conselhos da amiga. Mas na verdade o único bilhete que deixou pra ele foi o do seu chefe pra ele.

Quando estava pensando em entrar pra dentro de casa e esquecer de vez toda aquela fantasia que só era mais uma das centenas que já imaginara com ele, toca o celular, uma mensagem. Seria ele? Nada, era propaganda da operadora. Toca a segunda, ela não quis ver, entrou, sentou na mesa de almoço já com toda família reunida, aceitou o pedido de noivado, beijou um pensando no outro, brindou com sorriso amarelo e sequer conseguiu fazer amor, se é que ela já tinha feito isso um dia, desconfiava que não.  Desligou o celular, inventou febres e dores de cabeça pra não fazer nada com o noivo naquele feriado que não via a hora de acabar para poder ir trabalhar e ver Tobias. Diziam que ela estava vivendo fortes emoções encorajando o noivo que tentava ser solidário e quanto mais querido ele era, mais ele a irritava, mais ela o desprezava porque ela se sentia mal por não desejá-lo mais e sim a outra pessoa. Ela queria vomitar a verdade, queria vomitar palavras, contar tudo, se livrar daquele peso, culpa… Queria amar sem fazer alguém sofrer, mas ela sabia que precisava escolher…Entre ela só sofrer ou o noivo e a família toda. Foi quando lembrou da frase que criou pra si mesmo na adolescência, de como a fazia de hino. Escreveu ela num papel deixou aliança ao lado, foi até a varanda pensou em voar com os pássaros, ligou o celular, recebeu a mensagem:

– O que vai fazer hoje?

E respondeu com uma pergunta:

– Te ver?

Pegou a chave do carro e partiu porque afinal seu lema sempre foi…

“Sem sentir, não faz sentido”

E seguiu “o rumo do seu próprio coração” como diz o Canto Alegretensse  lá da terra em que nasceu.

 

MELINA GUTERRES é jornalista, roteirista, atriz, diretora. Como repórter trabalhou para veículos como Folha de São Paulo, Estadão e UOL. Como roteirista escreveu “Clandestinos” longa-metragem contemplado no Programa Ibermedia em 2009, selecionado entre 35 países. É roteirista da série de ficção infanto-juvenil “Despertos” com Panda Filmes de Porto Alegre-RS. Escreveu e dirigiu curtas  de ficção e documentário. Foi Jurada no I Festival de Cinema Estudantil – CINEST em Santa Maria-RS. Trabalhou com produção audiovisual desde 2002  e assessoria de comunicação para empresas do RS, RJ, SP.  Foi uma das autoras do projeto “Cinema Comunitário”, contemplado no edital Novos Brasil/OI Futuro, (Rio de Janeiro-RJ), atua na área social desde os 13 anos. É poetisa , blogueira, apaixonada por poesia, cinema, cultura, diversidade. Administra diversos canais online onde reúne mais de 100 mil pessoas. Lançou o site REDE SINA – COMUNICAÇÃO FORA DO PADRÃO em 2016, com intuito de dar voz e proporcionar trocas à diversas pessoas.  Sua poesia “A sorte de um final tranquilo” no livro “Juventudes: Outros Olhares sobre a diversidade” da UNESCO.  Em 2017 inicia curso de interpretação para cinema no Stúdio Fátima Toledo e entra pra ABRA – Associação Brasileira de Autores Roteiristas. Também tem seu site pessoal: www.melinaguterres.com

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