Foi quando entrei pela primeira vez com o caiaque no Rio Uruguai, a correnteza era muito forte. Bastaram duzentos metros para o velho Uruguai me lembrar quem manda. Cinco ou seis remadas rendiam apenas dois metros. Remar longe da costa é sempre mais difícil, aprendi isso num domingo com vento, nunca mais cometi o mesmo erro.
Para reduzir o esforço, viro o barco na direção da ponte internacional e vou pela costa, rumo ao antigo “Cortado”, uma pequena área alagada que se forma entre o rio e o bairro Mascarenhas de Moraes, também conhecido como Marduque. Na água mais calma, fui remando sem pressa, sem muito objetivo, apenas subindo o Uruguai. No barco, não estou só. Desde aquele primeiro dia, Cenair Maicá vem comigo. Sempre. Há um espaço reservado para ele, ao lado das minhas leituras e das memórias que não são minhas. Cenair, ele vem inteiro: a voz, o violão, o rio. E, entre o som do remo e o som do rio, ele canta, sempre à capela, sempre a mesma canção:
“Oba, viva, veio a enchente. O Uruguai transbordou, vai dar serviço pra gente!”
Entre uma remada e outra, eu penso comigo: “Como pode o Cenair Maicá nunca ter cantado na Califórnia da Canção Nativa?”. Hoje, oito anos depois daquele domingo, percebo que “cantar num festival” não era o objetivo do Cenair. Parece-me que ele não estava muito interessado em fazer música para os festivais da época. Hoje sei que talvez não fosse esse o objetivo dele. Cenair não queria festival, queria memória. Queria cantar as dores das margens do rio, cantar as mãos calejadas dos balseiros, a infância ribeirinha, os missioneiros esquecidos, os índios transformados em heróis nas página dos livros e tratados como marginais na vida real das ruas. Cenair queria cantar a vida, não apenas os palcos.
E sigo remando em direção ao Cortado.
Num passado não muito distante, o Cortado era um dos lugares onde as balsas de pranchão e de toras de árvores ficavam atracadas.
Quando as cidades da costa do Rio Uruguai se formaram, desde meados do século XIX, a madeira era material básico para tudo: servia para o carvão dos vapores, abastecia os fogões das cozinhas. Com madeira se construía embarcações, casas, as câmaras de vereadores, as igrejas e os galpões. Aqui, pelas bandas da fronteira, até os anos 1960, o transporte e a extração de madeira geravam muitos postos de trabalho e sustentavam boa parte da economia local.
As balsas mais rudimentares eram feitas apenas com toras de árvores. No centro, quase sempre havia um toldo ou barraca onde o balseiro se protegia do sol e da chuva. As madeiras vinham das florestas próximas às margens do rio. Dou mais uma remada e o Cenair me canta ao ouvido: “cedro, angico e canjerana”.
Centenas de pessoas se dedicavam ao corte e ao transporte dessas árvores, abrindo caminhos por dentro dos matos até a beira do rio e seus afluentes. Quando o Uruguai baixava, as toras eram deixadas nas margens para secar. Depois, eram amarradas em forma de balsas, estruturas que podiam ser pequenas ou chegar a mais de cinquenta metros de comprimento.
Quando os troncos estavam secos, bastava chegar a época das cheias, rapidamente as toras boiavam. Assim, eram amarradas umas às outras e levadas para as cidades e estâncias que se espraiavam nas margens do Uruguai. Em Uruguaiana, minha cidade, as balsas chegavam ao Cortado vindas de Santo Tomé, São Borja, Itaqui. Algumas vinham de mais longe, do Norte do Estado ou das bandas do Rio Paraná, trazendo madeira de pinho. Havia balseiros que, além da madeira, transportavam produtos contrabandeados da Argentina, farinha, graxa de cerdo, bebidas de todo tipo e vendiam tudo em cada parada.
Por vezes, algumas balsas ancoravam quase se desmanchando. Na descida do rio enfrentavam tempestades fortes. As amarras das toras se soltavam e o prejuízo era grande, sobretudo se os pranchões se desprendiam, pois, ao contrário das toras, eles afundavam com maior velocidade.
E eu sigo remando por entre as balsas da minha imaginação, todas próximas da margem. Vejo as crianças correndo pela costa em festa e subindo por sobre os troncos de árvores. Umas vão correndo por sobre as madeiras dos pranchões, desprovidas de medo ou qualquer sensação de perigo, jogando-se na água e subindo novamente.
Até os anos 1950, mesmo depois da inauguração da ponte internacional (1947), o Cortado seguia sendo um dos principais atracadouros antes do porto. Ali as balsas aguardavam para descer mais um trecho do rio, até perto da antiga destilaria de petróleo. Perto dela também ficavam à espera das chalanas, uns barcos menores que faziam o transbordo da madeira para a costa, arrastando os troncos na água por cortas. Em terra, carroças aguardavam na margem para levar os pranchões para as madeireiras e serrarias. Já os troncos, mais pesados, precisavam ser cortados em pranchões ou fracionados em partes menores para só depois serem transportados.
Na costa erguia-se uma fileira de grandes cavaletes, capazes de sustentar, por cordas e roldanas, as imensas toras. Uma vez erguidas, um homem subia com a serra e começava a abrir os pranchões. Embaixo, outro segurava a outra ponta da serra. O de cima puxava, o de baixo empurrava, dezenas e dezenas de vezes. Quantas casas foram construídas em Uruguaiana com essas madeiras trazidas pelo rio? Em Alegrete? São Borja? Itaqui? Quantas casas, hoje patrimônios históricos, ainda guardam sob as telhas portuguesas a firmeza de cedros, angicos e canjeranas chegados nas enchentes?
Nisso, deixo o barco descer o rio. Vou pela correnteza, sem pressa. Cenair vai em silêncio, observando tudo. Passo por debaixo da ponte e vou vendo o movimento do porto. Enquanto as balsas atracavam, a uns quinhentos metros do Cortado começava um projeto que mudaria a história brasileira, ali, na costa barrenta do rio Uruguai. Cinco empresários, entre eles o argentino Eustáquio Ormazábal e o brasileiro João Francisco Tellechea, criaram a primeira destilaria de petróleo do Brasil: a Destilaria Rio-Grandense de Petróleo S/A.
A destilaria iniciou as atividades em 1933 com grandes expectativas de emprego e desenvolvimento econômico. Logo depois, em novembro de 1934, nas margens do Uruguai, produziu os primeiros litros de gasolina feitos no Brasil. Era um tempo em que a Petrobrás sequer existia e importávamos todo o combustível que consumíamos. Em 1935, a destilaria uruguaianense já tinha cerca de duzentos funcionários e entregava mais de quatrocentos barris de combustível por dia. Não tardou a produzir outros derivados, querosene, aguarrás, diesel e vários tipos de solventes.
Enquanto as balsas com madeiras desciam o rio, da Argentina vinham barcos, feitos os caminhões tanques. Eles eram chamados de “chatas’tanque”, cruzavam o rio lotados com petróleo equatoriano. O petróleo saía do Equador e vinha de trem pela Argentina, depois, em portos correntinos, eram colocados nas “chatas’tanque” e levados até a destilaria de Uruguaiana.
Além de gerar empregos na cidade, a destilaria também empregava gente no país vizinho. Era preciso toda uma rede de trabalhadores para que o petróleo chegasse até a margem brasileira do Uruguai. E tudo parecia ir muito bem, produção crescendo, consumo gerando lucro. Mas poucos anos depois de aberta, a destilaria interrompeu os trabalhos. Uma decisão do governo argentino proibiu a reexportação do petróleo e bloqueou a chegada da matéria-prima a Uruguaiana. Em 1936, sem poder receber o petróleo do Equador, a primeira destilaria do Brasil parecia fadada ao fechamento. Recebeu, porém, um novo impulso: a parceria com empresários uruguaios. Com isso, ela deixou Uruguaiana.
Praticamente todos os equipamentos foram levados para a cidade de Rio Grande. Numa faixa de terra entre a Lagoa dos Patos e o mar ergueu-se um grande complexo industrial; surgia assim uma das maiores empresas brasileiras, a Ipiranga S/A. Sabe a frase “pergunta no posto Ipiranga”? Pois tudo começou na beira do rio Uruguai, ali, onde eu passei de caiaque, sendo levado pela correnteza. Do meu barco, vejo Cenair Maicá bem sentado na costa, com uma linha na água, tenteando uma piava, bem do lado dos canos do oleoduto da refinaria.
Em 1938, o governo Getúlio Vargas nacionalizou a empresa e retirou da gestão os sócios estrangeiros. Seguiram na administração as famílias uruguaianenses que iniciaram o projeto. A empresa não parou de crescer. Em 1975, um incêndio pôs fim às últimas atividades realizadas nos prédios da destilaria em Uruguaiana. Hoje, os prédios e algumas estruturas da antiga destilaria seguem na margem do rio. Ainda se vê um e outro oleoduto. Abandonados por muito tempo, agora são administrados pelo poder público municipal. Sempre que passo por ali, entre uma remada e outra, fico pensando no “se…”. E se… E se a destilaria não tivesse parado? Como seria a nossa região? Como seria Uruguaiana? Nunca saberemos.
Resolvo subir o rio mais uma vez. Volto pela costa, o Maicá sobe novamente no barco. De volta ao Uruguai, sigo remando, passo pelo Martin Pescador e pelo Clube Tamandaré. Deixo a estátua da Iemanjá para trás. Cruzo novamente pela ponte e pelo Cortado. Vou remando e cantando a música de Cenair Maicá: “Vou jogar minha balsa no rio, vou rever maravilhas que ninguém descobriu.” Na imaginação, eu faço o caminho dos antigos vapores, Salto Grande é para o outro lado, eu vou subindo na direção de Santo Tomé. Numa época em que não havia transporte terrestre coletivo, o rio era a via mais rápida para partir ou chegar naquela Uruguaiana do passado e que observo aqui do rio.
Os vapores eram embarcações que dividiam as águas do Uruguai com as balsas dos madeireiros e as chalanas dos pescadores e contrabandistas. Funcionavam como trens ou ônibus, levando pessoas e mercadorias rio acima. Passavam por São Marcos, Itaqui, São Borja, ligando cidades e populações. Em 1912, um dos mais conhecidos era o Vapor Rio Grande, que subia o Uruguai deixando um rastro de fumaça.
O Vapor Rio Grande fazia paradas em vários locais, deixando e pegando gente pelo caminho. Algumas pessoas, quando não era possível chegar na costa, embarcavam vindas em chalanas. Como eram barcos de grande porte, os Vapores precisavam navegar pelo canal profundo do rio, do contrário encalhavam e por isso não conseguiam se aproximar das margens.
E eu e o Cenair seguimos remando rio acima. Pouco mais de quinhentos metros depois do Cortado, grandes brechas surgem na costa, as árvores que já eram poucas desapareceram. Com a retirada constante de lenha, as balsas madeireiras acabaram com a mata ciliar. Retirou-se tanta madeira da costa que hoje só se vê campo. Depois dos anos 50, as lavouras de arroz deram o tiro de misericórdia.
O desmatamento, para abrir áreas de plantio e irrigação, terminou com o que restava de mata. A erosão das margens encheu o canal do Uruguai de areia e lodo. Com isso, terminaram também as viagens dos Vapores. Em tempos de seca, quando remo em meu caiaque, assim que passo pelos pilares da ponte, encontro bancos de areia onde é possível descer do barco e ficar com a água no joelho. Pobre rio Uruguai.
Cansado, desisto de remar até a bomba, um motor que puxa água do rio para as lavouras de arroz do lado brasileiro. Deixo a correnteza me levar de volta. O Cenair Maicá está pensativo, eu também. Lembro de uma pesquisa feita na UNIPAMPA sobre como os alevinos, filhotes de peixes, são sugados e mortos por esses motores, milhões por ano. E culpamos os pescadores artesanais pela diminuição das espécies. Remo uns metros para dentro do Uruguai e deixo a correnteza me levar com maior velocidade.
Enquanto retorno, imagino-me rio acima, num passado não tão distante. Eu vejo o Cenair Maicá criança, cruzando o Uruguai à nado. Navegando de chalana com o pai, Seu Nandico Maicá. Vão os dois, levando chibo de um lado para outro. Posso ver o Cenair na beira do rio, aprendendo violão com algum peão paraguaio, crescendo nos acampamentos de extração de madeira em Misiones.
Quase posso ouvir, misturados ao barulho do rio, a gaita abafada dos bailes do Sapucay. Tem uns que dizem que, sempre que Seu Nandico queria chibear mercadorias, ele pedia ao amigo, um ribeirinho chamado Sapucaia, para fazer um baile em casa. Era o baile do Sapucay. Enquanto o furdunço acontecia noite adentro, Seu Nandico, tranquilo, contrabandeava produtos da Argentina sem ser incomodado pelas autoridades e garantia, assim, o sustento da família. Garantia o sustento do pequeno Cenair Maicá.
O rio Uruguai vai me deixando ir pelo tempo. Passam por mim, mais para o meio, dois grandes troncos de árvores. Boiam apressados, parecem mais ligeiros do que eu, seguem pela correnteza do centro de algum canal e levam na carona um biguá. Teriam esses troncos partido lá da região das Missões? Quem sabe estariam neles as memórias de outras gentes, como do Noel Guarani e doJaime Caetano Braun? Quem me dera fossem eles estes dois troncos missioneiros…
No fundo, sei que eram apenas duas árvores cansadas, vencidas, como tantas outras, cujas raízes costeiras se entregaram diante do nosso descaso e da erosão das nossas ganâncias. O rio ficou em silêncio. Eu digo para o meu companheiro de rio e de remo: “Cenair, vou jogar minha alma no rio”. – E claro que pode, ele me responde com um pequeno sorriso. Joguei minha alma no rio e, feito uma balsa, retornei para o lugar de onde saí. Não era mais o mesmo. O Cenair já não voltou cantando. Voltamos os três, pensativos e melancólicos: Cenair, o rio e eu.

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