Home / #CULTURA / Sobrevivendo no inferno virou livro e o que isso que dizer sobre nossa cultura – POR JANIO DAVILA

Sobrevivendo no inferno virou livro e o que isso que dizer sobre nossa cultura – POR JANIO DAVILA

Esta semana vi em algumas redes sociais a publicidade da editora Companhia das Letras anunciando o lançamento de uma “versão livro” do álbum Sobrevivendo no Inferno do grupo paulista de rap Racionais Mc’s. A edição reúne fotos, contextualização, comentários e, naturalmente, as letras das músicas. Evidentemente, a publicação é consequência da indicação do álbum como leitura obrigatória do vestibular da UNICAMP. Penso que o fato possa suscitar interessantes e produtivas discussões. Não tanto sobre a importância do rap, acredito que isto já é mais que evidente. Não há como negar a força e significação dessa música dentro da cultura brasileira.

O ponto a que me refiro é a importância da discussão em torno da sacralização do objeto livro e, principalmente, do conceito Literatura

Foi possível perceber, tanto no texto de divulgação da editora quanto nos comentários dos internautas, um tom de comemoração em relação ao reconhecimento que está sendo dado ao álbum, a elevação da obra ao status de literatura. Destaco que gosto de Racionais Mc’s e Sobrevivendo no Inferno foi o primeiro álbum de rap que ouvi na vida. Sou admirador da música do grupo, assim como das posições políticas dos integrantes como pessoas públicas. Mas a questão que quero colocar é: por quê a música precisa desse tal reconhecimento para ser classificada como alta cultura (uso cultura no sentindo vulgar da palavra). E mais, por ser alta cultura, deve tornar-se livro?

Estudante de literatura que sou, amo livros e vivo deles, mas já não seria a hora de dessacralizarmos um pouco o objeto livro? Já falei aqui no Rede Sina sobre o preconceito com as adaptações de livros para o cinema. Vejo constantemente pessoas irritadas com o lançamento de livros de youtubers, como se o objeto livro fosse algo relegado a alguns poucos iniciados e a sua existência transformasse automaticamente o seu conteúdo em alta cultura.

Crime e Castigo, de Dostoievski, por exemplo, foi publicado na forma de folhetim, um capitulo por dia no jornal, não se transformou numa obra-prima depois que o editor resolveu compilar tudo num volume.

Os textos do David Coimbra não vão passar a ter coerência porque foram publicados por uma editora. Assim, não é o fato de ter um livro que vai fazer com que Racionais Mc’s sejam melhores ou piores.

Esse poder do livro pode ser percebido nos pequenos exemplos cotidianos. O famoso slogan que todo jovem dos anos 90/00 já leu na tela da MTV dizia: “desligue a TV e vá ler um livro”. Mas que livro? Um livro de piadas do Ary Toledo continua sendo um livro. É claro que estou usando humor, pois a campanha da MTV de suspender a programação por alguns minutos exibindo esta mensagem foi uma ação interessantíssima de um canal alternativo. Todavia, não deixa de transparecer nela o pensamento de que o suporte livro é inseparável do bom conteúdo,

Os exemplos são muitos. É muito impressionante você chegar na casa de um amigo e ver aquela coleção gigante de discos, ou então, aquela estante repleta de DVDs com todos os clássicos do cinema. Mas quando você chega na casa de alguém e se depara com uma enorme biblioteca, aí as coisas mudam. “Esse cara é culto” “Fulano é inteligentíssimo. Olha a quantidade de livros que ele tem.” Ainda, seguindo a mesma linha, não é raro vermos os país orgulhosos porque seus filhos estão sempre com um livro na mão. Mesmo que esse livro seja o Guia politicamente incorreto da história da América Latina. (Já aproveito para fazer um alerta aos pais mais desatentos. Caso encontrem seus filhos com algum livro da série Guia Politicamente Incorreto, prestem mais atenção com quem seus filhos estão andando. Chamem para um diálogo e perguntem se está tudo bem.)

Brincadeiras à parte, a palavra reconhecimento também andou na moda quando Bob Dylan foi agraciado com o Prêmio Nobel de Literatura em 2016. “Agora Bob Dylan é literatura” “A música popular foi finalmente reconhecida”. Então me questiono: por quê considerar algo literatura é elevar este objeto? Eu não precisei que Bob Dylan ganhasse um prêmio para considerar suas músicas tão importantes quanto às grandes obras literárias.

Coloco as canções de Chico Buarque ao lado dos poemas dos maiores poetas da língua portuguesa. Independente de prêmio literário.

Já discuti mais de uma vez com pessoas porque afirmei que determinado autor não era literatura. As pessoas se ofendem porque entendem que ao afirmar que algo não é literário, você está rebaixando a obra. Como se a palavra literatura fosse uma espécie de selo de qualidade. Como já escreveu Terry Eagleaton, se literatura significasse boa qualidade, não existiria literatura ruim. Algo pode ser literário e não ser bom. Ou pode não ser literário e ser genial. Considero os romances de Paulo Coelho literatura. As biografias de Lira Neto não. No entanto, considero o trabalho do segundo melhor do que o do primeiro.

Não quis nesta última parte do texto entrar no conceito do que é literatura ou não. Para isto, existem milhares de livros de teoria literária (e não estou exagerando).

Quis apenas expor minha opinião de que, literatura, não é sinônimo de boa qualidade cultural. Pedro Almodóvar, Martin Scorsese e David Lynch não são literatura e são ótimos artistas. Não são literatura pelo simples fato de que são… cinema!

Se alguma corrente teórica afirmar que eles são literatura porque se valem do roteiro, talvez apresentar outros argumentos, ótimo. Serão considerados literatura também. Mas não é necessário que algum intelectual iluminado aponte o dedo e diga “isto é literatura” para que os filmes sejam considerados obra de arte . Penso que é importante descontruírmos nossos preconceitos, no lugar de ficarmos esperando a academia apontar seu dedo de ouro e definir algo como literário ou não.

 

 

 JANIO DAVILA é natural de Santa Maria, RS. Graduou-se em Letras – licenciatura em português e literaturas de língua portuguesa pela Universidade Federal de Santa Maria, mesma instituição onde faz mestrado em Estudos literários. Sempre teve o sonho de ser escritor. Após descobrir que não sabia escrever, decidiu se tornar professor de literatura e ensinar aos outros como se faz.

Comenta aí... :)

comentários

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *