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Quando um texto ficcional é preconceituoso? POR JANIO DAVILA

No meu estágio de docência orientada da pós-graduação, fui designado a ministrar aulas sobre a prosa contemporânea na disciplina Fundamentos da Literatura Brasileira. Determinada noite, véspera de uma aula, um e-mail de uma aluna me surpreendeu. Ela questionava, com uma fina ironia, o texto que eu havia escolhido para trabalhar na aula do dia seguinte. Na mensagem, ela questionava se continuaríamos a trabalhar textos machistas nas aulas, ou aquele era uma exceção.

Minha primeira reação foi tentar formular uma explicação convincente de que o texto que escolhi não era um texto machista. Porém, ao tentar elaborar tal explicação, outra questão surgiu: O texto não seria, realmente, machista? Fracassando, mais uma vez, na tentativa de explicação, passei para uma terceira questão: Quando um texto é machista?

O texto questionado por ela é um conto de Rubem Fonseca chamado Shakespeare. Resumindo de forma grosseira a história do conto, trata-se de uma discussão entre um autor, claramente misógino, e uma professora de literatura sobre o cânone literário. Ele defendendo os valores canônicos tradicionais, ela atacando o predomínio masculino nas listas de melhores autores da história. Evidentemente, é leviano afirmar que uma obra é machista apenas por conter um protagonista machista. Seria o equivalente a dizer que o filme O poderoso chefão faz apologia ao crime por contar a história de uma família mafiosa. É sempre necessário questionar como a estrutura da obra apresenta tais personagens e, principalmente, quais os efeitos que a história causa no leitor, o que sempre envolve um alto grau de subjetividade.

O texto ficcional, diferentemente dos outros textos (jornalístico, acadêmico, etc.), é composto por várias camadas. Se numa coluna como esta o sujeito da enunciação é claramente o autor, no texto ficcional não é bem assim que funciona. No texto literário, por exemplo, existe um autor (que pode ser pensando como uma função autor, segundo Foucault, ou seja, um nome que cumpre uma função classificatória), que por sua vez cria um narrador, enquanto este último reproduz a voz das personagens. Simplifiquei de forma grosseira, tentando ser didático, a quantidade de vozes contidas no texto literário, com o intuito de mostrar como é problemático afirmar que um texto diz isto ou aquilo. Antes, é necessário fazer a pergunta: quem diz isto ou aquilo? Ou então: como se diz isto ou aquilo?

Na tentativa de deixar mais clara a questão, trago aqui o romance Desonra, de J.M. Coetzee. A história se passa na África do Sul pós-apartheid e tem como protagonista o professor universitário David Lurie. Lurie é uma personagem condenada por estupro, racista e com um discurso claramente misógino. No entanto, não é possível afirmar que o livro de Coetzee seja racista ou misógino. Quem reproduz ideias preconceituosas é o protagonista, não o autor. Em diversas passagens o narrador chega a ironizar as ações do protagonista, além do fato de que a trama não permite que sejamos simpáticos às ações do professor. Logo, a história não nos induz a pensarmos que o comportamento do professor seja um modelo a seguir, pelo contrário, as ações de David Lurie culminam com a queda do protagonista.

Por outro lado, também não podemos eximir todos os textos ficcionais do preconceito usando como argumento o fato de que determinada ideia pertence apenas a uma personagem. Repito: é necessário pensar em como a personagem é apresentada pela obra. Qual o efeito que a obra busca causar no apreciador. Basta pensarmos nas telenovelas brasileiras, espaço em que os papéis subalternos são geralmente destinados a artistas negros e nordestinos, ou nos filmes hollywoodianos, em que o bandido é, na maioria das vezes, um latino. Também não podemos deixar de pensar em obras em que o opressor é vitimizado enquanto o leitor é induzido pela história a pensar que os responsáveis pelas desgraças são pessoas pertencentes a uma minoria.

Cito como exemplo o primeiro filme Tropa de Elite. Na obra de José Padilha, a questão do tráfico é tratada de forma simplista, vitimizando a polícia e atacando os discursos pelos direitos humanos, além de retratar todo morador de favela como criminoso. A trama se desenvolve de modo a sugerir ao espectador que a truculência da policia se justifica, enquanto o discurso daqueles que a criticam não é válido pelo fato de desconhecer a realidade. As cenas representadas no filme buscam justificar as ações do protagonista, um capitão da policia que tem ideias fascistas e considera que “bandido bom é bandido morto”. O espectador menos crítico, provavelmente, termina de assistir ao filme com a impressão de que a solução para a criminalidade é dar carta branca para a policia entrar nas favelas matando.

Logo, é evidente o cuidado necessário ao atribuirmos qualquer tipo de ideologia a uma obra ou autor. Também quero ressaltar que não acredito que as obras possam ser divididas entre preconceituosas ou não preconceituosas. As grandes obras da literatura não se deixam cair em esquemas tão simplistas. Inclusive, me arrisco a dizer, que uma das marcas das grandes obras é, justamente, conseguir transitar pelas linhas tênues que dividem o certo e o errado, sem visar a objetivos moralizantes.

Peço desculpa aos que abriram o texto pensando que encontrariam resposta para a pergunta do título. Infelizmente, este pobre estudante e professor de literatura não tem nenhum método ou critério definitivo para classificar as obras em preconceituosas ou não. Porém, tenho como consolo o fato de que, provavelmente, nem os maiores teóricos e críticos literários os têm.

 

JANIO DAVILA é natural de Santa Maria, RS. Graduou-se em Letras – licenciatura em português e literaturas de língua portuguesa pela Universidade Federal de Santa Maria, mesma instituição onde faz mestrado em Estudos literários. Sempre teve o sonho de ser escritor. Após descobrir que não sabia escrever, decidiu se tornar professor de literatura e ensinar aos outros como se faz.

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