Home / #OPINIÃO / O INSUPORTÁVEL POEMA DAS HORAS DIFÍCEIS (ou Quando só te Resta o Consolo da Poesia) por TAVINHO PAES

O INSUPORTÁVEL POEMA DAS HORAS DIFÍCEIS (ou Quando só te Resta o Consolo da Poesia) por TAVINHO PAES

… não … eu não estou vivenciando os minutos, segundos, horas e dias de um amor que se acabou ou me machucando por uma paixão fria que não me deseja, não me corteja nem me aprecia … não estou reclamando do que tenho nem mendigando pelo que queria … longe disso … o que é difícil, aqui, nessa minha estranha sinfonia, é ver o amor da minha vida morrendo na minha frente, aos poucos e na minha companhia … um véu que esvoaça como uma fumaça que desvanece no ar … um momento que não há como achar uma entrada e, no mesmo momento, os fatos te avisando que não há como enxergar uma saída porque não há nenhuma saída …

o que está dentro de mim, nesta hora enfadonha e vadia, não está trancado a sete chaves, mas, lá fora, caso saísse apressado, não encontraria nenhum abrigo nem que lá estivessem todos os meus melhores amigos … sei que é preciso aceitar resignadamente o temporal que ainda está só nas nuvens e a ventania que sopra seu assobio pela fresta da janela … não … não se pode comentar nem discutir por aí o que é essa expectativa sombria … ninguém vai entender e você vai parecer mais ridículo do que alguém que tem tantos amores e tantas paixões resolvidas e mal resolvidas, que um deles não pode fazer tanta falta nem deve significar algo que não possa ser substituído, esquecido ou evitado como um castigo … mas, a vida tem as suas ciladas e até o abismo é algo magnífico, se você estiver caindo nele, sem ter onde se segurar e sem saber se vai chegar ao fundo inteiro … não há dor nem desespero … é só uma melancolia que me dominou e me fez olhar minha ferida mais cicatrizada e antiga … uma força maior do que a virtude de alcançar uma alegria … toda uma vida que eu nunca soube como terminaria, despiu-se na minha frente e eu não fiquei indiferente quando percebi que essa vida fazia parte da minha vida … estou diante dela, sem nenhum escudo, nenhuma defesa, nenhuma simpatia … a prece me escapa, a fé me excede, o mundo divino me contagia … só me resta a minha mais frágil potência, a única fonte de energia que encontrei no meu caminho: ela, a poesia … agarrei-me a ela em tantas outras derrotas que quando as vitórias apareceram eu a consumi como quem acariciava o pelo de um felino selvagem, num sofá … estou diante da meia-noite do meu clarividente meio-dia … diante do que o medo nem sabia que existia … não há espaço para a luxúria nem para as fantasias, que dirá para as piadas e as grandes euforias … estou assistindo o trailler do thriller que se anuncia … vendo a demolição do que foi a fortaleza que me protegia … preparando-me para uma falta que não poderá ser preenchida por nada … assistindo impotente a volta do ponteiro do relógio no qual a corda não será dada, emperrada que está, depois que a hora estabelecer as badaladas no sino de uma Igreja que não vai me receber para sua missa … não há com quem abrir a guarda … não há com quem possa deixar as lágrimas aparecerem cristalinas, puras, ácidas, verdadeiras e tardias … não há desculpa, não há pecado, não há empatia … é o destino dizendo o que não se pode ouvir da própria vida … a ida que não tem volta, desde a hora da partida, se aproximando de maneira furtiva e definitiva … estou cada vez mais forte, mas sei que a coragem que presumo ter não vai dar para superar o momento da despedida … está tudo lindo, tudo calmo, tudo escuro como a luz da estrela-guia … está tudo muito longe da morte … é a vida e a sua única certeza, cara a cara com as dúvidas que serão resolvidas com respostas que não precisam se antecipar mais … não dá pra criar parágrafos, distribuir versos e desenhar o poema que eu queria … o susto passou … não tem festa, carnaval, não tem nada que eu possa fazer … só a poesia … o amor que a gente sente nunca nos deixa em paz nem nos aborrece – fica ali, quieto, calado, ciente de que não pode fazer mais do que respeitar o rito e aguardar o mito resolver a charada, na hora marcada, sem aviso … é só ficar aqui, tentando me acalmar, vendo o movimento do pêndulo, a badalada do relógio, o tempo que se esvazia … amanhã, será outro dia … até que a noite chegue pra sempre e o sol esteja de saída … aqui dentro de mim tem uma coisa que eu não tenho como por pra fora … aqui dentro tem um amor que nunca esteve tão mal, tão perto do fim, tão cheio de agonia – e mesmo assim, contra todas as certezas que me são dadas sem esconderem nenhuma contrapartida, permanece poderoso, inquebrável, invencível … aqui dentro estou eu e é comigo mesmo que eu tenho que resolver essa aposta perdida … estou nesse teclado, olhando essa tela, dizendo a todos o que ninguém quer ouvir, ler ou pensar a respeito para não se envolverem nessa novela chata e de pouca vivacidade – ninguém quer se entreter com a tristeza de alguém que não consegue ter alegrias … estou mais sozinho do que jamais estive, mais amedrontado do que covarde, mais cabisbaixo do que infeliz … estou ciente de que, agora, nestes mimnentos complicados que já estão indo mais longe do que o previsível para uma contrariação pessoal e intimista, serei um estorvo numa festa animada, um baixo astral incapaz de um só rebolado num bloco perfeito para acomodar qualquer histeria, um chato de galochas diante de quem se diverte e está curtindo as melhores coisas da vida … aqui sou eu, eu mesmo e o que eu sonhei que seria … eu e o que não fui, até quando era o que queria ser … aqui sou eu assistindo um filme que não queria filmar, mas que que estará no meu cinema, sem render um centavo na bilheteria .. se eu fosse capaz de relevar tudo que está me acontecendo e saísse por aí como se nada estivesse acontecendo, pode ser até que digam que eu sou um cara extraordinário, mas eu nesno vou me sentir um hipócrita desses que merecem o apelido de “canalha” … aqui estou eu e a minha dama de companhia … ela, a mais frágil das espadas do guerreiro que tem à mão uma arma que mão mata … a doce, única, inexorável e poderosa … poesia!

desculpem, mas o parágrafo não deu para ser curto … não precisa curtir, comentar nem compartilhar … isso não deveria estar publicado aqui para chatear as pessoas que não tem nada com isso e que não querem saber nada além da miséria dos miseráveis … isso não existe neste mundo multimídia, inventado como uma vida paralela para quem tem que assumir muitas personalidades … isso é um problema que ninguém tem e não quer compartilhar … isso dói … isso é uma coisa triste … mas, isso é real!

TAVINHO PAES (1955- …macro microBiografia semicompleta)
– aquário, ascendente aquário, lua em escorpião – carioca, botafoguense por causa  de Mané Garrincha – 59 anos
– estudou Economia (1972-1976), Filosofia (1977) na PUC-RJ (não se formou em nada – nunca ganhou nem concorreu a prêmio nenhum)
skills: poeta em tempo integral; escritor nas horas vagas; jornalista do contra;, webmaster por circunstâncias (desde 1991 – técnico em BBS, Access e Apache), trabalha com vídeo desde 1980 –  editor produtor, diretor; comediante (ator, não); roteirista enquanto contador de estórias reais); e anarquista (graças a deus)!

... não ... eu não estou vivenciando os minutos, segundos, horas e dias de um amor que se acabou ou me machucando por uma paixão fria que não me deseja, não me corteja nem me aprecia ... não estou reclamando do que tenho nem mendigando pelo que queria ... longe…

User Rating: 4.6 ( 1 votes)

Comenta aí... :)

comentários

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *