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NÃO INTERESSA SE ERA ARTE: ERA PENSAMENTO POR CARLOS GERBASE

A livre manifestação de pensamento não é uma prerrogativa das obras de arte. Discutir se a exposição Queer Museu, no Santander Cultural, tinha valor artístico ou não é irrelevante face ao que aconteceu. Debater se as pinturas e as instalações eram de “bom gosto” é mais irrelevante ainda.

A irrelevância máxima é tentar definir se havia algum tipo de pornografia. Isso é mais inútil que enxugar gelo. O que alguém chama de pornografia pode ser a fé religiosa do seu vizinho. O que realmente importa é analisar a maneira como a exposição, em que ideias e pensamentos sobre a sexualidade circulavam, foi atacada por pessoas que se sentiam incomodadas.

Vivemos, teoricamente pelo menos, num Estado de Direito. Os incomodados tinham várias opções. Retirar-se (daí vem a velha frase “Os incomodados que se retirem”) e deixar os não-incomodados em paz. Seria uma beleza. Só que não. Eles poderiam recorrer à lei, denunciando a mostra para o Ministério Público, ou chamando a polícia e dizendo que crianças estavam sendo moralmente abusadas, ou encaminhando uma petição a um juiz. Só que não. Eles poderiam promover uma grande campanha contra a exposição nas redes sociais, o que realmente fizeram, manifestando seu pensamento, por mais abjeto que seja. Criada a inevitável polêmica com os não-incomodados, ela chegou ao Washington Post e ao New York Times. A justiça está aí para reprimir as injúrias e os abusos verbais, que foram muitos, conforme manda a lei.

Mas os incomodados não tinham o direito de invadir a exposição e ameaçar seus frequentadores, como fizeram várias vezes. Não tinham o direito de gravar vídeos mostrando as obras de forma distorcida para propagar mentiras. Não tinham o direito de gritar como loucos que crianças estavam vendo pornografia. Foram essas ações físicas, que colocavam em perigo as obras, o público e o local da exposição, que levaram à sua interrupção.

O Santander Cultural tem muitos seguranças, mas eles não conseguiam mais garantir a integridade de quem estava lá. Seria um absurdo retirar apenas as obras “condenadas”, chancelando o julgamento de uma minoria reacionária. Seria temerário esperar um conflito violento. A manifestação de pensamento sobre assunto relevante para a sociedade sucumbiu a um ataque de quem não admite pensamento diferente do seu. É triste. E essa tristeza não tem nada a ver com arte.

CARLOS GERBASE

Nascido em Porto Alegre, onde sempre morou, é escritor, roteirista e diretor cinematográfico, além de professor universitário. É sócio-diretor da empresa Prana Filme. É formado em Jornalismo pela Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (1980), tem doutorado em Comunicação Social também pela PUCRS (2003) e Pós-Doutorado em Cinema pela Universidade Sorbonne-Nouvelle – Paris V (2010). Atualmente é professor titular da PUCRS, atuando no Curso Superior de Tecnologia em Produção Audiovisual (graduação) e nos Programas de Pós-Graduação de Comunicação Social e Letras (Escrita Criativa). Começou sua carreira cinematográfica no final da década de 70, na bitola super-8, com a qual realizou o longa-metragem “Inverno”(1983), vencedor do Festival de Gramado em sua categoria. Seguiram-se diversos trabalhos em 35 mm, entre os quais o longa “Verdes Anos” (1984) e o curta “Deus Ex-Machina”(1996), vencedor de 11 prêmios em Gramado e de uma menção honrosa no Festival de Clermont-Ferrand, na França. Mais recentemente, escreveu e dirigiu os longas de ficção “Tolerância”(2000), “Sal de Prata”(2005) e “3 Efes”(2007), além do documentário “1983 – O Ano Azul” (2009) e do longa-metragem “Menos que Nada” (2012). Na televisão, escreveu diversos roteiros para a Rede Globo, com destaque para as minisséries “Memorial de Maria Moura”, “Engraçadinha” e “Luna Caliente”. Roteirizou e dirigiu programas para a Globo (“O comprador de fazendas”, na série “Brava Gente”) e para a RBS-TV (“O amante amador” e “Faustina”, na série “Contos de inverno”). Como escritor tem quatro trabalhos de ficção (dois volumes de contos e dois romances) e três obras ensaísticas na área do cinema (tecnologias digitas, direção de atores e iniciação à realização cinematográfica). Em 2013, participou do projeto “Primeiro Filme”, em que ministrou oficinas de capacitação para professores (ensino fundamental e médio), tendo como base seu livro didático “Primeiro filme: descobrindo, fazendo, pensando”. No segundo semestre de 2014, foi curador da exposição “Moacyr Scliar, o centauro do Bom Fim”, que levou mais de 100 mil visitantes ao Santander Cultural, em Porto Alegre, e foi destacada pela imprensa como um dos principais acontecimentos culturais do ano. Entre 1983 e 2002, foi membro – como baterista e depois vocalista – da banda de rock “Os Replicantes”, que lançou quatro discos no período. Fundou a Invideo Produções Cinematográficas em 1984, ao lado de Luciana Tomasi. Fundou a Casa de Cinema de Porto Alegre, em 1987, e foi seu sócio até 2011. Em outubro de 2011, criou a Prana Filmes, tendo como sócia a produtora Luciana Tomasi.

 

A livre manifestação de pensamento não é uma prerrogativa das obras de arte. Discutir se a exposição Queer Museu, no Santander Cultural, tinha valor artístico ou não é irrelevante face ao que aconteceu. Debater se as pinturas e as instalações eram de “bom gosto” é mais irrelevante ainda. A irrelevância…

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