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Não passarei pela vida em vão por LUIZ ALBERTO SANZ

Quarta-feira, 22 de junho de 2016 – Belo Horizonte, Minas Gerais. À vontade, sem formalidades, a cena vestida de luzes e equipamentos, o homem toma o violão e se chega ao microfone. Só. Tem a cabeça e a barba acinzentadas, grisalhas como se diz. Mas o espírito parece ser o mesmo de quatro décadas passadas, quando pisou pela primeira naquele palco do Teatro Marília, em Belo Horizonte, para seu “show” de estreia: Abriu. Alusão à “abertura” trombeteada pela Ditadura. Mais maduro e sábio, este homem – músico, compositor, ator, diretor de espetáculos, roteirista, dramaturgo, radialista, cantor, pai de Cora e marido de Ana Paula, e o que mais for preciso para criar beleza e consciência – é, e sempre foi, LERI FARIA. E tem uma história para contar.

Não é possível contá-la apenas em prosa, ou em poesia, ou mesmo nas lindas e fortes canções que compõe. Só pode contá-la usando todos os recursos, da linguagem corporal aos arranjos, sem abandonar a simplicidade. O espetáculo de lançamento não é feérico, tem jeito de sarau, antecipado por um rega-bofe com acepipes variados, desde petiscos árabes a doces e cachaça mineira. Prazeroso, como convém a um chef e gourmet que não só cozinha esplendidamente, como conhece quem sabe fazê-lo. E autografa os álbuns como quem escreve bilhetes para aqueles a quem ama. Cria-se o clima.

Cercado por músicos-admirados-admiradores e amigos-fãs-companheiros, lançará seu quarto disco, o CD Nosso, portador do mesmo clima, da gênese à audição. Cada faixa conta uma parte dessa história, mas também a história toda. Como os fragmentos de um caleidoscópio, podem ser apresentadas em qualquer ordem, combinadas à maneira de quem ouve. Mantêm uma unidade, complexa e diferenciada. A ordem das músicas no sarau não é a mesma do CD, faz conexão com o que precisa ser lembrado para estar presente.

Penso que o clima e sentimento provocados por esse encontro no Teatro Marília não pode ser mais bem exposto do que nas palavras de Ana Cristina, cantora, escritora, designer e amiga de Leri na página deste no FaceBook:

23 de junho às 14:32·

Hoje, a sensação que me acorda do curto sono é: felicidade. Por mim, por nós, mas, principalmente, pelo outro.
É tão gratificante ver um amigo fazer as pazes com o palco. É tão nutritivo ver que, finalmente, ele decide lançar novamente ao mundo sua poesia e harmonia.
Depois de décadas sem soltar seus acordes assim, na face da plateia. E com o abraço amoroso de amigos talentosos, que se unem em torno de seus filhotes com a Música.
A vida até deu uns limões, mas o presente mais picante foram as pimentas CAROLINA REAPER. Um cesto delas, que ele comeu sem pestanejar.
E, enquanto queimava, resolveu por pra fora seus próprios frutos: registrou um a um, alegrias, memórias, dissabores, aventuras. Poliglotas, polirrítmicas.
E jogou-os ao mundo, às feras e às minhocas. E, cada um a seu modo, somou esforços pra que, finalmente, ele voltasse a se enraizar naquilo que o completa, tanto quanto os versos e as estripulias das Coras de sua vida.
Leri Faria, você me emocionou demais ontem. Porque ali foram várias vitórias. Porque ali foram várias mãos, várias boas e produtivas intenções.
Agradeço a você por se renovar e agradeço a todos os seus amigos e cúmplices.
O “Nosso” traz um pouco do melhor de você.
Beijos e parabéns pelo show.

1. Leri Faria foto Joao Diniz (1)

No prólogo, Leri, só com seu violão, conta e canta os primeiros passos dessa longa caminhada, lembrando, entre outras, a icônica Jequitinhonha (Leri e Paulinho Assunção) de 1979, primeira faixa do LP (depois remasterizado e lançado como CD em 2007) “Jequitinhonha: notas de Viagem”, de Melão e Leri. Moços e velhos, na plateia, todos a conhecem, afinal, produto do Projeto Jequitinhonha, que reuniu artistas e pesquisadores de um amplo leque de atividades, marcou um importante momento de transição na cultura mineira, a virada dos anos 70 para os oitenta, a despedida da Ditadura ainda escancarada, a recuperação dos valores populares, que ainda não haviam chegado ao palco do Palácio das Artes:

Jequitinhonha, braço de mar

Leva esse canto pra navegar

Traz do garimpo pedra que brilha

Mais do que a luz do luar

Jequitinhonha, Jequitibarro

Mete essa unha, tira da terra

Vida talhada com as mãos

Vida talhada com as mãos 

Já te quis, já te quis, já te quis tanto

Já te fiz, já te fiz, já te fiz sonho

Te cantei, te cantei, te cantei pranto

Como a água da chuva

Que inunda esse chão 

Se, então, Leri e seus companheiros já talhavam a vida com as mãos, as décadas seguintes o viram fazendo-a soar de todos os jeitos e maneiras. É preciso lembrar, aqui, que a mesma energia que usava para criar beleza, usou para organizar os artistas de Minas na Associação Profissional de Artistas e Técnicos em Espetáculos de Diversão e para articulá-los com os do resto do país na luta pela regulamentação da profissão (1978) e sua execução. Quem viveu este tempo sabe como foi duro. Eu o conheci ainda nesse processo. Mas, no sarau e no disco isso é apenas subtexto, aquilo que o intérprete sabe e sente mas não diz.

Ainda só em cena, invoca a plateia para acompanhá-lo em “Canoeiro/Beira Mar”, comunhão de cantos de trabalho (domínio público), que dá o tom para o que virá a seguir:

Canoeiro! Canoeiro!

O que é que trouxe na canoa?

Trouxe ouro, trouxe prata,

Trouxe muita coisa boa!

Os músicos sobem ao palco pra trazer-nos tanta coisa boa. Organizam-se, como se estivessem no quintal de nossa casa, para o que der e vier. Afinal, é noite de prazer. Nem todos tocaram no disco, mas se prontificaram a substituir os que não puderam vir, como Zé Neto, arranjador, produtor musical e violonista de Paixão, oitava faixa do CD, e Luciana Vieira, a voz privilegiada que faz contraponto com Leri na faixa 12, Mar de Água Doce.

Em meio a tantos músicos de qualidade, algumas presenças deixam marcas profundas em mim. Explico: fui um dos muitos (centenas) participantes do plebiscito internáutico a que Leri submeteu 27 composições, no site Sound Cloud, em 2015, para selecionar 15. Fiquei imaginando, se todas eram tão belas somente com voz e violão, como seria o resultado depois dos arranjos. Então, o encontro com Celio Balona e seu acordeon dialogando, no palco (aquela cabeça branca e o sorriso franco, iluminados) e na gravação, com Leri, o contrabaixo de Milton Ramos e o Piano de Clóvis Aguiar, em Valse Azur (faixa sete, uma das minhas preferidas) transportou-me à cinematografia francesa dos nos 30 e seguintes, aquela em que nos deliciávamos com atores-chansonniers como Charles Trenet e Maurice Chevalier.

Não é possível, aqui, escrever sobre todas as quinze músicas de Nosso. Mas não posso deixar de destacar a participação envolvente de Sérgio Moreira, o mesmo artista que apoiou Leri lá nos tempos de Abriu, levando-o ao palco do Teatro Marília. Cantor, produtor musical, engenheiro de som, dono de estúdio, está por toda parte em Nosso, mas principalmente, com sua atitude elegante e voz melodiosa, classicamente romântica, em Now and Then, de Isabel Malowany e Leri:

it’s over again… you
say that it’s all over now
forever and then, and
then… tou call me again,
again, again

Outro destaque notável é a participação de Barulhista, arranjador e programador de Pensamento, versos do arquiteto-fotógrafo-designer-poeta João Diniz e música de Leri (também na guitarra). No palco e no arranjo, dá ainda maior concretude às palavras de Diniz vocalizadas por Leri, no começo suavemente, ao final com vigor:

mude: plante uma muda
ande: se pouco contente
aja: parar é bobagem
siga: seu sonho persiga
(…)

prove: supor não aprova
sonhe: ceder é tristonho
ouse: a ação que renova
goste: negando o imposto 

fale a voz que embala
queira: a chance primeira
coma sabor que renova
tente: é seu pensamento.

E não deixem de escutar qualquer das músicas do CD, sobretudo Cora, sobre a poeta goiana, composta para um espetáculo de dança mineiro. A que mais amo, era também a preferida de minha companheira de vida, Maria Odila, por isso Leri a cantou a capella na cerimônia da sua cremação:

não passarei pela vida em vão plantarei flores no jardim
nem me apavoro com a solidão minha esperança não tem fim….
dentro de mim eu não guardo nada de velho ou de morto
palpita aflito o desejo em cada prega do corpo
não faço conta de nada, cantar é tudo que faço
e o sentimento do mundo deságua na beira do mar…

Nosso/Nuestro/Nôtre/Our é supimpa, superbe, jättebra, ingenioso. Parabéns, Leri Faria, João Diniz, Isabel Malawany, Sergio Moreira, Célio Balona, Luciana Vieira, Zé Neto, Milton Ramos, Clóvis Aguiar, Affonsinho (vocal e guitarra), Neném (Bateria), Adriano Campagnani (Baixo), Enéas Xavier (Baixo), Juninho Fiuza (Baixo), Léo Pires (Bateria), Ricardo Fiuza (teclados), Marcelo Freitas (clarinetes e sax tenor), Wagner Souza (flugehorn), João Machala (trombone), Everton Coroné (acordeon), Bilora (viola), Serginho Silva (percussão), Bill Lucas (percussão), Carlos Walter (guitarra), Marcelo Drumond (piano elétrico), Daniel Lopes (viola de 10), Jairo de Lara (flauta), esse vocal de anjos formado por Valéria Braga, Mônica Horta e Regina Mori. De novo a João Diniz em parceria com Márcio Diniz, pelo planejamento gráfico da capa e do livreto. E a Ana Paula Sena pela produção executiva.

O CD Nosso está à venda no site: www.apsacultura.com.br

Quarta-feira, 22 de junho de 2016 – Belo Horizonte, Minas Gerais. À vontade, sem formalidades, a cena vestida de luzes e equipamentos, o homem toma o violão e se chega ao microfone. Só. Tem a cabeça e a barba acinzentadas, grisalhas como se diz. Mas o espírito parece ser o…

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