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Meus muitos dias de trabalho por CARLOS GERBASE

 

Não estou considerando os muitos anos de labuta nos meus filmes, nem nos livros que escrevi, nem nos meus 18 anos como baterista e vocalista na banda Os Replicantes. Cinema, literatura e música, como todo mudo sabe, é coisa de vagabundo. Vagabundo não desconta Previdência e, portanto, não se aposenta. Vagabundo sempre morre na ativa.

Comecei a trabalhar no dia 15 de maio de 1978, com 19 anos. Meu patrão era o Brasil, representado pela Companhia de Comando da Terceira Região Militar, no centro de Porto Alegre. Durante 11 meses, recebi treinamento militar, fui office-boy, limpador de latrinas e auxiliar de escritório no SIP (Serviço de Inativos e Pensionistas) do Exército. Também carreguei armários, poltronas, geladeira e fogão na mudança da residência de um superior. Mas esse foi um bico interessante, pois me valeu uma meia folga na semana seguinte.

Enquanto fazia tudo isso pela Pátria, estudava Jornalismo à noite. Às vezes, por falta de tempo pra trocar de roupa, tinha que ir pra faculdade com aquele sensacional uniforme verde oliva. Não era muito agradável ser milico e usar cabelo escovinha na universidade em 1978. Mas fazia parte do meu trabalho. Por ironia do destino, meus 11 meses de árduo esforço na Previdência do Exército não são contados no cálculo de minha Previdência Civil. Talvez isso tenha uma boa explicação. Estou esperando por ela.

Depois disso, tive como patrões – com a carteira devidamente assinada – a Cia. Jornalística Caldas Jr. (exatamente um ano), o Colégio Israelita Brasileiro (por três anos e meio), a Rede Globo de Televisão (por oito anos) e a PUCRS (em que completo 36 anos de trabalho ininterrupto em agosto próximo). Em todos esses empregos descontei regularmente do meu salário a contribuição previdenciária. Não estou considerando os muitos anos de labuta nos meus filmes, nem nos livros que escrevi, nem nos meus 18 anos como baterista e vocalista na banda Os Replicantes. Cinema, literatura e música, como todo mudo sabe, é coisa de vagabundo. Vagabundo não desconta Previdência e, portanto, não se aposenta. Vagabundo sempre morre na ativa.

Detalhe interessante: por uns três anos, trabalhei na UFRGS, dado aula na Fabico, como professor substituto, depois de vencer concurso público para a vaga. Tinha contracheque e tudo. Estranhamente (pelo menos para mim), não há qualquer registro dessa atividade na minha Carteira do Trabalho, nem nos registros da Previdência. Talvez não houvesse desconto por ser um serviço público temporário. Não lembro. Não sei. Talvez professores substitutos federais sejam como recrutas do Exército Brasileiro: bravos servidores da Pátria tratados como vagabundos pela Previdência. Mas desconfio que há uma explicação legal e bacana. Estou esperando.

Somando apenas os períodos de efetiva contribuição (não estou contando o Exército) são 48 anos. Por outra ironia do destino, contudo, mais de dez anos das minhas contribuições não são computadas pela Previdência, pois eu acumulava dois empregos simultâneos e, idiotamente, descontava (no teto máximo) por ambos. Ano passado tentei reaver esse dinheiro e me disseram que o prazo para apresentar recurso estava vencido. Mais de dez anos de contribuições foram pro espaço, ou melhor, pra Pátria, que nem me agradeceu. Tá certo, fui imprevidente, ignorante e não percebi a burrada, mas será que os computadores da Previdência, na época do desconto simultâneo, não podiam ter me avisado o que estava acontecendo? Talvez alguém me explique. Estou esperando.

Resumindo: somando minha idade atual, 58 anos, com os 48 anos descontados de meus salários para a Previdência, alcanço o número 106. Vamos somar o saudoso ano no Exército e os três anos de UFRGS. Alguém acha que não foram anos trabalhados? Chegamos a 110, um simpático número redondo. Deveria ser mais que suficiente para pedir minha aposentadoria integral (para os homens, a soma precisa chegar a 95), mas, por conta da legislação, que não soma contribuições paralelas (nem coisas que fiz como vagabundo) apenas agora estou chegando lá.

Ainda sou “jovem”? Com certeza. Ainda posso trabalhar? Com certeza. Tem mais: gosto de trabalhar. Mas sou um “jovem trabalhador” com quase 60 anos que tem direito a começar a receber de volta a montanha de dinheiro que enfiou no sistema pela vida toda.

A reforma da Previdência proposta por esse governo interino é um tapa na cara de milhões de brasileiros que descontaram por décadas trabalhando na iniciativa privada e continuam esperando alguma retribuição. Enquanto eles aguardam – e eu sou apenas um deles – várias categorias de políticos e servidores públicos (dos três poderes) aposentam-se depois de poucos anos de contribuição. Se há um rombo na Previdência, eu não sou culpado. Eu só dei lucro até agora. Se há um rombo, ele é resultado de leis absurdas que garantem privilégios – muitas vezes também escamoteados na forma de interpretações dessas leis – para castas profissionais que não se submetem às regras impostas à maioria dos trabalhadores. É culpa de pensões super-dimensionadas entregues a pessoas que não deveriam recebê-las – já que pouco ou nada contribuíram para o sistema – e alegam os tais “direitos adquiridos”. E como ficam os “direitos adquiridos” de quem já contribuiu por décadas? Alguém me explica? Também estou esperando. A reforma, do jeito que está proposta, não é apenas antidemocrática. É imoral. É um ato que pretende tornar ainda mais injusto um sistema que já é injusto. Neste primeiro de maio, Dia do Trabalho, deixo aqui meu testemunho e meu protesto. Não estou cansado de trabalhar. Estou cansado de ser enrolado.

CARLOS GERBASE

Nascido em Porto Alegre, onde sempre morou, é escritor, roteirista e diretor cinematográfico, além de professor universitário. É sócio-diretor da empresa Prana Filme. É formado em Jornalismo pela Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (1980), tem doutorado em Comunicação Social também pela PUCRS (2003) e Pós-Doutorado em Cinema pela Universidade Sorbonne-Nouvelle – Paris V (2010). Atualmente é professor titular da PUCRS, atuando no Curso Superior de Tecnologia em Produção Audiovisual (graduação) e nos Programas de Pós-Graduação de Comunicação Social e Letras (Escrita Criativa). Começou sua carreira cinematográfica no final da década de 70, na bitola super-8, com a qual realizou o longa-metragem “Inverno”(1983), vencedor do Festival de Gramado em sua categoria. Seguiram-se diversos trabalhos em 35 mm, entre os quais o longa “Verdes Anos” (1984) e o curta “Deus Ex-Machina”(1996), vencedor de 11 prêmios em Gramado e de uma menção honrosa no Festival de Clermont-Ferrand, na França. Mais recentemente, escreveu e dirigiu os longas de ficção “Tolerância”(2000), “Sal de Prata”(2005) e “3 Efes”(2007), além do documentário “1983 – O Ano Azul” (2009) e do longa-metragem “Menos que Nada” (2012). Na televisão, escreveu diversos roteiros para a Rede Globo, com destaque para as minisséries “Memorial de Maria Moura”, “Engraçadinha” e “Luna Caliente”. Roteirizou e dirigiu programas para a Globo (“O comprador de fazendas”, na série “Brava Gente”) e para a RBS-TV (“O amante amador” e “Faustina”, na série “Contos de inverno”). Como escritor tem quatro trabalhos de ficção (dois volumes de contos e dois romances) e três obras ensaísticas na área do cinema (tecnologias digitas, direção de atores e iniciação à realização cinematográfica). Em 2013, participou do projeto “Primeiro Filme”, em que ministrou oficinas de capacitação para professores (ensino fundamental e médio), tendo como base seu livro didático “Primeiro filme: descobrindo, fazendo, pensando”. No segundo semestre de 2014, foi curador da exposição “Moacyr Scliar, o centauro do Bom Fim”, que levou mais de 100 mil visitantes ao Santander Cultural, em Porto Alegre, e foi destacada pela imprensa como um dos principais acontecimentos culturais do ano. Entre 1983 e 2002, foi membro – como baterista e depois vocalista – da banda de rock “Os Replicantes”, que lançou quatro discos no período. Fundou a Invideo Produções Cinematográficas em 1984, ao lado de Luciana Tomasi. Fundou a Casa de Cinema de Porto Alegre, em 1987, e foi seu sócio até 2011. Em outubro de 2011, criou a Prana Filmes, tendo como sócia a produtora Luciana Tomasi.

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