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Há muito a ser dito por NATÁLIA PARREIRAS

Celebramos os 11 anos de criação da lei Maria da Penha. E sim, há muito a ser dito.

Não estou me dirigindo aos que cometem tais crimes, alertando-os sobre a necessidade de buscarem tratamento especializado, de imergirem na descoberta dos fatores que desencadeiam seu comportamento violento. Isso pressupõe aceitação de sua condição, empatia para com o que causam às suas vítimas, responsabilização pelos seus atos. E é também por este motivo, que a justiça entra como única intervenção possível para coibir seu comportamento e para a imposição de um limite REAL, termos inexistentes na mente de tais indivíduos, que não raramente subestimam suas parceiras e acreditam estar acima de tudo, inclusive da lei.

Me dirijo às mulheres, todas, de corpo ou de alma:

Sim, é preciso interromper o ciclo de violência e a forma mais próxima de isso ser eficaz e definitivo, é tornando a questão um assunto extra-doméstico, dando ao fato o tratamento de instância criminosa e inaceitável.

É impossível se libertar da teia do abuso sem o braço da lei, já que a violência em todas as suas formas, demonstra a supressão de limites, amparada pela premissa de privacidade e cumplicidade, em uma sociedade em que a mulher ainda é vista como extensão do perdão e da indulgencia maternas ou como “responsável por manter a harmonia do lar e a continuidade do casamento” pelo “bem da família”.

Quero falar sobre um tipo muito comum de agressor e comumente o que mais sai impune de suas consecutivas práticas de violência: O sociopata narcisista.

Carismático, charmoso e articulado, ele surge com uma oferta de amor sempre “incondicional”, com uma iniciativa e capacidade de assumir compromisso que irá te deixar com a sensação de que ele é o “cara”, que homens de verdade são assim firmes, vigorosos e decididos.

Em pouco tempo, ele irá querer te dar o mundo: Você será a mulher mais incrível, a mais linda, digna de qualquer sacrifício e de dedicação irrestrita, será mimada e conquistada como jamais foi.

Tudo o que for importante pra você, será um alvo e objeto de conquista para ele: Sua família, seus amigos, seus interesses pessoais.

Aos poucos, surgirão “condições” para que você tenha essa relacionamento especial e super diferenciado: Você passará a acreditar que para ter algo assim, precisará fazer “pequenas” concessões: Passará a existir um controle sobre o que você fala, o que posta nas redes sociais, como interage em público. De repente haverá uma tensão crítica sobre tudo o que fizer: Suas roupas já não te deixarão tão bonita, ou algo será até capaz de te deixar “feia”, mas tudo será dito para o “seu bem” , “com a franqueza que só esse amor tão raro pode trazer”.

Sem perceber, você passará a fazer cada escolha sob o imperativo de uma voz outra, como se uma figura de autoridade agora te protegesse e merecesse esse “respeito: O seu parceiro se tornará, não uma referência, mas um divisor de águas no que você entende como “ideal de comprometimento”.

Até aí, tudo se parecerá muito com a rotina de um relacionamento normal, mas só parecerá:

À medida em que o compromisso for se tornando mais sério e assumido socialmente, o ímpeto de dominação irá extrapolando limites: Seus horários passarão a ser supervisionados, suas atividades questionadas, ele irá tentar manter contato diário praticamente ininterrupto com você. Se estiver no trabalho, usará o chat, se for viajar, videoconferência: sempre fornecerá de forma muito detalhada cada passo dele: Isso a fará se sentir segura e irá induzi-la a querer agir da mesma forma, reportando a ele, tudo ao seu redor.

Subitamente o seu celular ou o seu computador passarão a ser vasculhados, seja com a desculpa de usá-los para fazer algo rápido pedindo as suas senhas de acesso, ou simplesmente invadindo os seus dispositivos enquanto você estiver fora e tiver deixado algo logado.

Qualquer comportamento seu que demonstre que de alguma forma você ainda tem iniciativa própria, será um sinal grave de alerta para ele: A princípio as reclamações virão em episódios que revelarão um homem “frágil e decepcionado”, em seguida, com rompantes de raiva simples, com grosserias e alguma virulência verbal, mas sempre seguidos de desculpas e de um aparente grande arrependimento.

O estabelecimento de uma atitude psicologicamente abusiva será fundamental para que o agressor vá comprometendo sua integridade emocional e por consequência, sua capacidade de reagir ou indignar-se. É uma prática gradual que começará bastante diluída nas interações cotidianas do casal: Culminará no momento em que, após “querer saber tudo ao seu respeito” de forma muito acolhedora e empática, ele começar a usar o que você confidenciou contra você, desvendando suas maiores vulnerabilidades e identificando seus pontos de atenção: O que é mais importante pra você? O que te faria se sacrificar para evitar um confrontamento?

Assim como na pratica do abuso emocional, o ciclo de violência física se apresenta de forma gradual: Pode começar com um copo d’Água no rosto, um soco na parede atrás de você, uma puxada pelo braço em um lugar público, seguido de um arrependimento extremo e desesperado.

Sem se dar conta, você irá se acostumando à uma personalidade “dócil” eventualmente explosiva, uma ou outra humilhação pública (sempre mais comum diante de desconhecidos e pessoas com quem tenham pouca ou nenhuma convivência, pois para a maior parte das pessoas, ele precisa mostrar-se como um exemplo de parceiro/namorado/marido, o que será muito útil em um momento mais à frente) até que algo mais grave aconteça: Um tapa, um empurrão, algo atirado em você, uma surra, uma tentativa de estrangulamento. Não importa qual seja o tipo de ataque físico, se você não sair imediatamente para tomar providências LEGAIS, acredite, será muito mais difícil retomar o controle da sua vida a partir daí.

Você irá querer sair fora, irá se revoltar, ameaçará denunciar: Ele implorará por clemência e perdão, prometerá se tratar, fazer terapia, te contará a respeito de sua infância traumática, dirá que agiu desta forma porque nunca amou ninguém assim e simplesmente não soube lidar com isso.

Se você o evitar, ele a cercará por todos os lados, apelará para todos que forem capaz de influencia-lá, porque naturalmente ele sabe que a vergonha e o choque te farão incapaz de contar a verdade para quem quer que seja: Afinal você estaria falando do cara incrível que todo mundo passou a amar e o principal: Estaria desconstruindo o homem que você ama.

Neste ponto, o ciclo se completa e após convencê-la a lhe dar uma chance, o abuso recomeça com episódios de aparente menor gravidade, sempre evoluindo da intimidação, para violência psicológica e eventualmente física. E irá se repetir, repetir, repetir.

Quanto mais inteligente e articulado for o agressor, mais sofisticadas se tornarão suas práticas abusivas: Agredir fisicamente nem sempre será o mais comum: Isso gera evidências detectáveis e passíveis de comprovação. Ele será surpreendentemente “inventivo” para não deixar rastros: Cuspirá no seu rosto, puxará suas pernas enquanto você dorme até bater a sua cabeça no chão, acordará você aos berros a poucos centímetros do seu rosto, destruirá seus pertences pessoais, controlará como gasta o seu dinheiro, quem frequenta sua casa, criticará fortemente a forma como você cuida das tarefas domésticas e exigirá práticas sexuais que não te agradam.

Você nem terá percebido, mas passará a buscar isolamento, falará cada vez menos com pessoas de fora e evitará tudo e todos que possam aborrecê-lo ou desencadear qualquer estresse.

Contatá-lo quando ele estiver fora de casa, só será possível quando ele quiser. Agora ele estará sempre muito ocupado e você atrapalhando sua vida, seus afazeres, seu trabalho.

Sempre que quiser fazer qualquer atividade que não traga algum benefício direto a ele, primeiro haverá chantagem emocional, depois ameaças (“quando voltar, você vai me pagar”, “se for, não precisa mais voltar”!) até que você comece a desistir de fazer qualquer atividade que ele não considere fundamental.

Se você passar a questionar os comportamentos dele, irá chamá-la de louca e encerrará o assunto de forma intimidadora e feroz, sem deixar qualquer espaço para que você exponha um problema ou desenvolva um tema que o desagrade.

À esta altura, ele passará a “confidenciar” aos amigos próximos e colegas de trabalho o quanto a sua personalidade “é complexa”, o quanto você é sensível e exagerada: Aos poucos ele irá desconstruir toda e qualquer referência positiva que exista a seu respeito a fim de descredibilizá-la diante de uma eventual tentativa sua de pedir ajuda ou de desmascará-lo.

Sempre que houver a oportunidade de ter contato com seus familiares, ele fará queixas disfarçadas, apontará suas “pequenas” imperfeições, seu gênio forte e a inesgotável paciência e determinação que ele tem como bom parceiro/namorado/marido.

Quando ele trouxer as próprias visitas ou diante de pessoas que ele julgue importante impressionar, você momentaneamente irá ter esperança de que ele possa melhorar ao vê-lo lhe tratando bem e com uma aparente tranquilidade no modo de agir e se comportar. Acreditar nessa sobrevida do relacionamento pode ser fatal.

Se você ousar contar para alguém e ele for confrontado, irá negar veementemente, ou diante de alguma evidência física, tentará distorcer os fatos ou minimizar os seus atos: Dirá que foi só um tapa, uma vez só, que se arrepende, que você está usando isso contra ele, sim, agora ele é sua vítima!

Então ele passará a ameaçar a sua vida abertamente e a de seus familiares. Se tentar falar sobre terminar tudo, você correrá sério risco de morte. Você estará literalmente dormindo com o inimigo e será questão de tempo até algo trágico acontecer.

Um narcisista jamais aceitará ser confrontado, rejeitado, abandonado. Não sem o advento da lei. Ele jamais assumirá qualquer responsabilidade ou admitirá seu comportamento perverso e abusivo, sempre terá desculpas para tudo e seguirá manipulando todos a sua volta.

Para deter comportamentos como estes, só nos resta a lei.

Sim, uma lei falha, de um sistema falho, que ainda deixa muito a desejar na assistência e no atendimento, mas que também conta com pessoas incríveis que lutam diariamente contra realidades como essa e não hesitarão em ajudar, esclarecer, orientar.

Se você identificou algum desses traços em alguém que conhece ou convive, por favor, não se cale, não se omita, não adie.

Resista às pressões, aos julgamentos,
Aguente firme.
Você não está sozinha e você vai conseguir!

Foto: Ingrid Trindade

Natália Parreiras nasceu em Carazinho, Rio Grande do Sul e mudou-se ainda criança para o Recife. Formou-se em Letras pela Universidade Federal de Pernambuco e por cinco anos lecionou Redação Argumentativa na capital pernambucana. Publicou “Inverno versos” (2002), “Épura prosa amorosa – em 9 atos e 3 dimensões” (2008), “Ócio criativo: uma poética dirigida em poemas ao acaso” (2008) e “O livro que não escrevi” (2014). No Rio de Janeiro, nos últimos oito anos assinou a produção executiva do “Corujão da Poesia”, a única vigília semanal de literatura e arte da América Latina, comandada por João Luiz de Souza e Jorge Ben Jor.  É idealizadora do “Flagrante Poético”, que estimula jovens a compartilhar poesia através da imagem via twitter. Fundou o “Brazil Poets Society – organização de jovens brasileiros que tem por objetivo a difusão da escrita e da leitura por intermédio de cartas virtuais pelo aplicativo americano Lettrs, a partir do qual co-organizou o livro Poetguese: A utopia por um mundo de palavras, em edição bilíngue – inglês/português, publicada em Nova Iorque –, que reúne poemas de 84 jovens de 16 estados brasileiros. Atualmente, conclui sua Especialização em Literatura, Arte e Pensamento contemporâneo pela PUC-Rio e prepara seu próximo livro, “Quinta Estação – Poemas e Paragens”.

 

NOTA SINA:

Confira o clipe da semana que trata de relacionamento abusivo: ‘Without The Lights’ de Elliot Moss

*

COLABORE:

Já passou por alguma situação de abuso, assédio? Quer contar sua história? Pode ser de forma anônima. Nós queremos saber e ao contar tentar evitar muitas outras. Se tiver disposição em colaborar envie e-mail para sinarede@gmail.com ou nos ache em nossas redes sociais, Rede Sina ou As Mulheres que Dizem Não 

 

Celebramos os 11 anos de criação da lei Maria da Penha. E sim, há muito a ser dito. Não estou me dirigindo aos que cometem tais crimes, alertando-os sobre a necessidade de buscarem tratamento especializado, de imergirem na descoberta dos fatores que desencadeiam seu comportamento violento. Isso pressupõe aceitação de…

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