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“Eu, Daniel Blake” é nós, trabalhadores por FELIPE HENRIQUE GONÇALVES

30/06, todos à GREVE GERAL

Vencedor da Palma de Ouro no Festival de Cannes de 2016, o filme de Ken Loach (“Terra e Liberdade”, “Pão e Rosas”, “Ventos da Liberdade”…) perpassa o chão social de Newcastle, Inglaterra, em tempos de austeridade e desemprego. A história acompanha um homem de 59 anos, Daniel Blake, que sofreu um ataque cardíaco. Após se recuperar, ele é desaconselhado pelos médicos a retornar ao trabalho de carpinteiro.

O problema central do filme é evidenciado quando ainda não se dispõe de qualquer cena visual e, com um fundo escuro, ouve-se uma voz extremamente desinteressada, com um tom robótico, de uma servidora terceirizada responsável pelo processo decisório da liberação do seguro, uma espécie de auxílio-doença do governo inglês para Daniel. Mas a funcionária parece pouco sensível ao que lhe aconteceu. Aparentemente ignorando o problema principal – o ataque cardíaco que este sofrera há alguns meses e que agora o impede de trabalhar -, ela parece tratá-lo como um mero inconveniente. Seu descaso é tão evidente que nem mesmo seu status profissional ela se importa em oferecer: indagada se é médica ou enfermeira, ela se limita a repetir ser uma “profissional da saúde”. Num sistema onde todos são números e prazos e serem cumpridos, ou ele se encaixa nestes moldes pré-estabelecidos, ou ficará de fora. Há formulários estúpidos a serem preenchidos, depoimentos a serem prestados, esperas absurdas ao telefone, entrevistas humilhantes, avaliações a serem atendidas. E se ele não estiver à altura de tudo o que se espera dele, será simplesmente deixado de lado. Assim, sem renda, o protagonista ao solicitar apoio do Estado tem o auxílio negado e, ao recorrer da decisão, mergulha em uma espiral de burocracia injusta e constrangedora. Apesar do esforço em encontrar um modo de provar a sua incapacidade, ninguém está interessado em admiti-la. O protagonista, um analfabeto digital, se vê preso em um mundo de burocracia informatizada e cercado por um mar de indiferença onde o mínimo sinal de empatia por parte dos outros é encarado como algo a ser repreendido. O filme traz com detalhes o sentimento de frustração que este vive ao perceber que está andando em círculos sem conseguir evoluir com suas solicitações. O expectador logo se identifica com os intermináveis momentos de espera ao telefone com uma música de fundo para ser atendido e, após isto, precisar ser transferido diversas vezes até encontrar a pessoa adequada para a resolução do problema. Por isso, ilustra o sentimento de frustração e impotência de pessoas que, presas no fundo do poço, não demoram a descobrir que nenhuma escada será lançada em sua direção pelo sistema impessoal que usa a burocracia com o claro objetivo de criar dificuldades desnecessárias e que levam qualquer indivíduo necessitado a acabar desistindo de buscar auxílio. Ao mesmo tempo mostra que, fora da lógica inerente perversa do capitalismo, há geralmente a solidariedade entre aqueles que reconhecem estar em situações muito próximas umas das outras.

Nesse sentido, Daniel Blake é a contrapartida humana da relação acima descrita. Mesmo num cotidiano de privações, ele encontra tempo e disponibilidade para ajudar seus jovens vizinhos imigrantes. Numa de suas várias idas a departamentos governamentais, Daniel encontra Katie, mãe solo de dois filhos, obrigada a se mudar para Newcastle, pois em Londres não consegue auxílio-moradia, e que passa os dias em subempregos e as noites cuidando da casa dissipada na qual reside para que as crianças possam ter um lar minimamente habitável. Daniel se torna um pai para Katie e um avô para as crianças. Juntos eles se unirão para resolver seus pequenos problemas práticos e dar força um ao outro para encarar os grandes problemas, do qual não depende só deles. O que vemos é o antagonismo entre o calor do espírito humano e a frieza do Estado. A humanidade que demonstram realça a indignidade do monstro que os condena. Aliás, alguns dos instantes mais comoventes da trama são precisamente aqueles nos quais vislumbramos, mesmo que rapidamente, pequenos gestos de apoio mútuo partindo de pessoas que já não têm muito a oferecer, percebe-se um aceno de Ken Loach à antiga solidariedade proletária. Num mundo competitivo, mediado pelo dinheiro e pelas coisas, a dignidade é a matéria-prima mais escassa.

Desse modo, é impossível não reconhecer a dor e a humilhação de Katie que abre mão de suas refeições para priorizar a nutrição dos filhos e que, durante uma visita à uma instituição de caridade que distribui comida, não consegue conter a fome e abre um enlatado de extrato de tomate ainda entre as prateleiras que contêm as doações e o come puro, numa das cenas mais dolorosas. Ou, ainda, quando Katie se vê descoberta por Daniel no trabalho de prostituição.

O que se verifica é que ambos se encontram no limite das suas forças numa batalha sobre-humana para sobreviver aos efeitos da ofensiva neoliberal. A história deles é a mesma dos milhares de ingleses que mofam na fila dos centros de assistência social à espera do seguro-desemprego, deslocados da equação financeira da Europa e distantes da sensação de dignidade. Algo similar ao caso brasileiro, que diante da ofensiva neoliberal de Temer tem propagandeado que se gasta demais com o já insuficiente sistema previdenciário.

Ken Loach, humanista, de esquerda e simpatizante do trotskismo, aponta no filme, com sua empatia, aquilo que deveria ser óbvio para todos: que se o Estado – ainda que reconheça os seus limites de classe –  não tiver a humanidade de oferecer suporte aos que nada ou muito pouco possuem, não será o deus mercado que irá fazê-lo. Afinal, para este a miséria é uma estatística e o trabalhador é constantemente avaliado não como um ser humano, mas como uma peça de engrenagem cuja importância é proporcional ao seu valor de produção.

“Eu, Daniel Blake” é sobre o desmanche do que restou de Estado de Bem-Estar Social após a ofensiva neoliberal de Thatcher, mas também pode ser sobre o desmanche do que restou de Constituição de 1988 após a ofensiva neoliberal de Temer. O filme é britânico, mas é sobre capitalismo, portanto, universal. Ilustra um processo que tem caracterizado o capitalismo pós-crise de 2008, mas principalmente os países periféricos: os constantes ataques aos direitos historicamente conquistados pela classe trabalhadora. Sob o pretexto de ajuste fiscal para “acertar as contas”, a burguesia, que historicamente privatizou os lucros, quer, agora, socializar os prejuízos.

A burguesia que pague pela crise! Dia 30/06, todos à GREVE GERAL! Nenhum direito à menos! Diretas Já!

 

FELIPE HENRIQUE GONÇALVES

Paulistano, 34 anos. Doutorando em Ciências Humanas e Sociais pela Universidade Federal do ABC (UFABC), mestre em História pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (2012), sob o título “Democracia e Socialismo nos debates do Partido dos Trabalhadores (1987-1991), pós-graduado (Lato Sensu) em Sociologia pela Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo – FESPSP (2008), licenciado em História pela Universidade Bandeirantes – UNIBAN (2006) e graduado e licenciado em Ciências Sociais pelo Centro Universitário Fundação Santo André-CUFSA (2005). Possui 12 anos de experiência como docente e realiza estudos nas áreas de Sociologia, Ciência Política e História Contemporânea, História do Brasil República e Economia Política, atuando principalmente nos seguintes temas: democracia, cidadania, direitos humanos, partidos políticos, neoliberalismo, desenvolvimentismo, financeirização e marxismo. É militante político-social na defesa dos direitos humanos e dos interesses da classe trabalhadora. Considera-se um cinéfilo, garimpeiro de músicas e da cultura latino-americana no geral.

 

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