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ENTREVISTA: RUDI LAGEMANN

por Melina Guterres

“É sempre assim em tempos de crises. As idéias fascistas prosperam e os artistas são os primeiros a serem agredidos. É preciso combatê-los sempre. No campo das idéias e não no dos punhos”.

Em um ano em que espaços culturais e artistas foram atacados sob acusações de pedofilia, a Rede Sina trouxe para rever o filme Anjos do Sol, e entrevista o seu roteirista e diretor Rudi Lagemann, que estudou o tema por 10 anos antes de finalizar o primeiro tratamento do roteiro. O filme lançado em 2006 recebeu diversos prêmios e Lagemann chegou a ser homenageado pela ONU. Ele cedeu os direitos do filme para ONGS e para o governo brasileiro. “Usaram o filme na educação e formação de mão de obra para o combate à prostituição infantil. Além disso, a Polícia Federal e a Interpol fizeram várias operações batizadas de Anjos do Sol, aqui e no exterior, destruindo prostíbulos com crianças e prendendo vários criminosos desta rede de exploração sexual que envolve crianças e adolescentes. É um retorno gratificante”, conta.

Rudi Lagemann é natural de Cachoeira do Sul-RS, nasceu em 1960 e iniciou suas atividades no núcleo super-oitista gaúcho dos anos 80. Foi diretor de produção de longas como Verdes Anos, Me Beija (também como ator) e Aqueles Dois. Por Me Beija recebeu o prêmio de Melhor Ator no Festival de Brasilia de 1984. Em 1985, mudou-se para o Rio de Janeiro onde trabalhou como assistente de direção de diversos realizadores, tais como Cacá Diegues, Lauro Escorel, Jorge Duran, Murilo Salles, Fabio Barreto, Ruy Guerra, Suzana Moraes, Daniel Filho, Tizuka Yamazaki, Carlos Manga. Foi roteirista de Kuarup, de Ruy Guerra. Nos anos 90, trabalhou com os irmãos João Moreira Salles e Walther Moreira Salles. Tornou-se diretor de publicidade, trabalhando em mais de quinhentos comerciais de televisão, vencendo vários festivais, inclusive recebendo o prêmio de Diretor do Ano. Realizou o seu primeiro longa – Anjos do Sol. A partir de 2008 tornou-se diretor de teledramaturgia da Rede Record de Televisão onde dirigiu dez novelas e o seriado Conselho Tutelar. Atualmente se prepara para dirigir nova novela. Confira entrevista:

REDE SINA – O que te levou a escrever Anjos do Sol? Por que esse nome?

RUDI LAGEMANN – Eu trabalhava no Rio, em cinema e publicidade, e estava em busca de um tema para a realização de um sonho que era dirigir o primeiro longa-metragem. Pela minha própria formação humanista, como também pela minha inquietude em relação aos problemas constantes da nossa sociedade, pesquisei assuntos que tivessem sido pouco explorados no audiovisual, mas que trouxessem à tona um debate que fosse importante sobre questões sociais. Pesquisei sobre trabalho escravo infantil e encontrei farto material sobre a exploração sexual de crianças e adolescentes, comumente chamada de prostituição infantil. Na cinematografia brasileira, apenas Iracema, de Orlando Senna e Jorge Bodanzki, realizado em 1973, se aproximava do tema. Concluí que aí eu teria um material rico e inexplorado para trabalhar.

REDE SINA – Como foi pesquisar sobre o tema e construir a história dos personagens? Quantos tratamentos teve o roteiro?

RUDI LAGEMANN – Da decisão de realizar um longa sobre a prostituição infantil até o roteiro final foram nove anos de pesquisa e redação. Eu trabalhava para me sustentar e nos períodos de folga trabalhava no projeto. O roteiro teve três tratamentos até ser premiado para participar do Laboratório de Roteiros do Festival Sundance, organizado pelo ator Robert Redford, e vencer o edital de Longas-Baixo Orçamento do MINC

REDE SINA – Quanto à direção,  à montagem… como foi a construção da narrativa? O que foi prioridade para você nas suas escolhas?

RUDI LAGEMANN – A minha idéia sobre a realização foi a do docu-drama. Ou seja, construir uma ficção com ares de documentário, mas não esquecer da parte do entretenimento porque o tema já era muito duro, áspero. Precisava de um pouco de aventura para ter a atenção do público e não afastá-lo. Na época, em função do Cidade de Deus, se falava na expressão “pipoca engajada”. O desafio de todo o trabalho de criação, desde a redação do roteiro, até a realização das filmagens, está na busca do equilíbrio entre o cinema autoral e o cinema de entretenimento. Para isto eu já tinha a experiência de  dez anos em cinema, trabalhando na realização de 22 filmes, nas mais diversas funções, e mais dez anos em publicidade como diretor.

REDE SINA – Como foi o trabalho com o elenco?

RUDI LAGEMANN – O processo de escolha do elenco impunha alguns desafios graves para mim. A personagem principal teria que ser uma desconhecida, ainda criança, e era como um bastão que passava de mãos em mãos. Então busquei “mãos experientes” para pegarem o bastão. Assim consegui, em virtude do roteiro e da intenção social do projeto, a participação de alguns ótimos atores, experientes e talentosos: Antonio Calloni, Chico Diaz, Darlene Gloria, Otavio Augusto, Vera Holtz, entre outros. E parti para testes de elenco para os papeis das meninas. Testamos cerca de 700 meninas de todos os cantos do Brasil até chegar a 50 finalistas e, depois, às onze que pegaram os papeis. A partir daí foram seis meses de ensaio comigo e com duas preparadoras de elenco (que trabalhavam a parte física e temas mais íntimos –como a sexualidade-). Eu trabalhava mais a parte da interpretação em cena. E as preparadoras fizeram muitos exercícios e conversas sobre estas questões mais espinhosas por se tratarem de crianças e adolescentes. As famílias das crianças acompanharam todo o processo. Ensaiávamos nos finais de semana, e formou-se uma pequena comunidade entre os familiares e elenco.

REDE SINA – Por que falar de pedofilia? O que diria aos que atacam exposições de arte sob esses tipos de acusações aos artistas?

RUDI LAGEMANN – Como já disse na primeira resposta, escolhi a prostituição infantil por ser um tema grave e ser tolerado em muitos recantos do país. Sobre os ataques às exposições isto é em decorrência da formação da nossa sociedade. Somos um povo formado por muitos imbecis, vivendo num paraíso. A virulência é a marca principal dos ignorantes e imbecis. A formação educacional da maior parte da população é falha, e a nossa elite se vale disto para a acumulação de riquezas. Para a alegria da nossa elite, os arautos dos imbecis (patrocinados por ela, inclusive) falam do que não entendem, de temas diversos do que deveria ser debatido, para aparecerem como messias de tempos melhores. Não há nenhuma novidade nisto. É sempre assim em tempos de crises. As idéias fascistas prosperam e os artistas são os primeiros a serem agredidos. O preconceito é a linha que amarra estes idiotas. É preciso combatê-los sempre. No campo das idéias e não no dos punhos.

REDE SINA – Você tem trabalhado com televisão e recentemente dirigiu a série Conselho Tutelar. As questões de ordem de social são prioridades para você?

RUDI LAGEMANN – Sou um trabalhador e um autor do mercado audiovisual. Como trabalhador, eu pago as minhas contas dirigindo novelas;como autor procuro me envolver em projetos que tenham uma ideia para além do mero entretenimento, que sirvam como instrumentos para disseminar informações e alimentar debates e ações que melhorem a vida das pessoas em geral.

REDE SINA – Pretende voltar ao cinema? Algum projeto em vista?

RUDI LAGEMANN – Vou dirigir uma novela agora, o que tomará oito meses do meu ano de 2018. Em paralelo, estou desenvolvendo os roteiros, já em finalização de um seriado de dez episódios, cujo tema são pessoas desaparecidas. Este seriado é para ser produzido em 2019, se tudo der certo nos caminhos de financiamento e produção. E tenho um roteiro pronto de longa-metragem, mas que só quero realizar em 2020.

REDE SINA – Como cidadão, artista, você sente certa obrigação para com o seu público? Qual? Como sente o retorno dele aos seus trabalhos?

RUDI LAGEMANN – O filme Anjos do Sol teve um retorno além do que eu esperava. Ele promoveu muitas ações propositivas em relação ao tema. Eu cedi os direitos do filme para ONGs e para o governo brasileiro que usaram o filme na educação e formação de mão de obra para o combate à prostituição infantil. Além disso, a Policia Federal e a Interpol fizeram várias operações, batizadas de Anjos do Sol, aqui e no exterior, destruindo prostíbulos com crianças e prendendo vários criminosos deste rede de exploração sexual de crianças e adolescentes. É um retorno gratificante. O filme ganhou vários prêmios, festivais e, pessoalmente, ganhei um prêmio e fui homenageado pela ONU. Já o seriado Conselho Tutelar, além de ganhar diversos prêmios e honrarias, serviu e serve como instrumento de informação e mobilização para a população mais carente sobre as questões pertinentes ao universo adolescente e infantil.

REDE SINA – Você também dá oficinas a atores, o que é necessário para se tornar um bom ator?

RUDI LAGEMANN – Nas oficinas que ministro para os atores/atrizes iniciantes sempre falo que as pessoas precisam ter A de atitude, ou seja, mostrar qual a sua diferença neste vasto mundo; B de bem, no sentido de serem pessoas do bem no modo de se relacionar com os colegas; C de crer como sinônimo de acreditar em seu potencial e não desistir nas primeiras dificuldades; D de dedicação, ou seja, estudar e se aperfeiçoar sempre. O resto depende de sorte para você conseguir conquistar o seu espaço. Você pode até ter talento mas às vezes não tem empatia ou carisma. É um mercado singular e, por vezes, cruel.

REDE SINA – Qual a sua sina?

RUDI LAGEMANN – Sina como sinônima de destino, predestinação, fatalidade? Bem, eu não acredito em destino. Acredito no livre arbítrio. E, principalmente, em serendipidade. Ou seja, estou sempre com os olhos abertos para as múltiplas possibilidades. Com os meus estudos e talentos, construo todos os dias o meu futuro, mesmo que isto não dependa só de mim.

***

Clique aqui e reveja o filme Anjos do Sol

Sinopse:

Anjos do Sol conta a saga da menina Maria, de 12 anos, que, no verão de 2002, é vendida pela família, no interior do nordeste brasileiro, a um recrutador de prostitutas. Depois de ser comprada em um leilão de meninas virgens, Maria é enviada para um prostíbulo localizado numa pequena cidade, vizinha a um garimpo, na floresta amazônica. Após meses sofrendo abusos com outras meninas, Maria consegue fugir e atravessa o Brasil na carona de caminhões. Ao chegar ao seu novo destino, o Rio de Janeiro, a prostituição coloca-se novamente no seu caminho e suas atitudes, frente aos novos desafios, tornam-se inesperadas e surpreendentes.

Roteiro e direção: Rudi Lagemann

 

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