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Dolorido relato de uma mãe agredida junto com a filha no carnaval de Salvador

Por uma mulher que prefere não se identificar em Salvador-BA

Nunca vi bloco mais odiado do que os Muquiranas. Odiado por LGBT e até por homens conscientes. Mas, principalmente, por nós, mulheres, que sofremos com os machismo deles todos os dias. Inclusive quando eles não estão fantasiados e não os conseguimos identificar.

Eles são asquerosos. Se vestem de mulher para assediar, agredir e ofender mulheres.

Segunda 12/02, aniversário de minha filha, que completou 20 anos. Nós fizemos um almoço e descemos para ver o Attooxxa na praça Castro Alves. Eu não sou de pular carnaval (podemos falar depois sobre isso), mas politicamente eu vejo muitas incoerências. Inclusive minha.

Quando quis ver o Attoxxa, eu queria ver , conhecer esse fenômeno de quem tanto falam. E eles são lindos. É uma resistência, uma força e super queridos.

Saímos às 17:oo e tivemos medo de passar pelo meio da pipoca de canário que estava atrasada. Mas, apesar de muito cheia, as pessoas apenas brincavam. Pulavam muito e cantavam as músicas que eu não gosto. Não gosto de muitas coisas naquela relação, mas admiro a beleza nos olhos de quem se sente, naquela canção, representado. Sem agressão física, sem assédio. Tudo certo.

Passamos Canário e fomos livre até a casa de Itália. Encontramos alguns malditos muquiranas no caminho,  que tinham o prazer em jogar água na nossa cara. Eu não entendo esse prazer em ver pessoas irritadas ou chateadas. Eles sabem que atirar água no olho com aquela arma dói muito, mas o fazem com prazer. Não entendo porque a segurança não impede que eles andem com aquilo na mão.

Fugimos até o final da Carlos Gomes, mas uma vez lá, encontramos o bloco inteiro vindo. Eles saíram às 13:00 do Campo Grande (segundo um amigo). Não fazíamos ideia de que o bloco poderia, ainda, estar passando às 18:00.

Assim mesmo, não é culpa nossa de o agressor estar na rua. Não é culpa nossa, nem da roupa que usamos, nem da nossa atitude. As pessoas precisam parar de culpar a vítima pelos assédios e agressões.

No fim da Carlos Gomes já estávamos as seis amigas, chateadas e cansadas de tanto pedir, implorar, mandar eles pararem de jogar água isoladamente.

Então, juntos, mais de 40 começaram a bater. Dar tapas muito fortes. Na bunda, no rosto, no peito, na genital. Tenho muita vergonha de falar sobre isso. Foi uma violência muito grande passar por isso. Só consigo chorar.

Nem dava para ver quem fazia. Eles batiam e corriam. Sempre vinham por detrás. Tentávamos sair dali mas estávamos cercadas por todos os lados. A prima de minha filha, de 16 anos, estava conosco e, na tentativa de defendê-la, fui agredida brutalmente por esses lixos que se dizem homens.  Mais de 20 homens que se juntaram para agredir física e moralmente seis mulheres que não aceitaram que pegassem em nossas partes íntimas.

Um deles ia bater em minha filha pelas costas, porque ela jogou o brinquedo dele no chão. Ele levantou a mão com tanta força para bater nela, quando ela virou de costas, que eu nem sei o que poderia acontecer. Eu o segurei. Ele e outros me bateram na barriga, nas costas. Ainda dói. Física e moralmente.

Eles batiam e diziam: “não sabe brincar, não desce pro play”.

Xingavam a gente. Um deles cuspiu no meu rosto, dizendo que ia tirar o meu batom, mas que eu estava muito feia. Passaram a mão entre as minhas pernas. E eu não estava parada. Gritava. Pedia socorro. Os outros, em volta, riam.

Eles separaram a gente. Minha filha e outra amiga do resto do grupo.

Quando as encontrei, minha filha estava com o braço roxo e sem poder mexer a mão. Ela luxou a mão lutando contra machistas que covardemente nos agrediam cantando a canção “mulheres no comando, mulheres no poder”.

O que ganhamos foi um discurso moral da sociedade dizendo que não deveríamos ter reagido.  Na minha opinião isso é apologia ao estupro. Não temos que aceitar isso.

Ensinem aos seus filhos desde pequenos para que não brinquem com quem não quer brincar, não beijem quem não quer ser beijado.

Conseguimos chegar na praça. Eu não me mexi. Vi o show parada. Chorando.

Mais tarde, os muquilixos só não mexeram conosco de novo porque estávamos com quatro homens que encontramos lá na praça. Esses lixos só “respeitam” a gente quando há homens por perto. Por que eles só respeitam homens? Medo? Não sei.

Mas assim como eles se unem para fazer o mal,  nós precisamos nos unir também. Deter esse o machismo que nos oprime e nos cega.

 

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Ligue 180
A Central de Atendimento à Mulher em Situação de Violência – Ligue 180 é um serviço de utilidade pública gratuito e confidencial (preserva o anonimato), oferecido pela Secretaria Especial de Políticas para as Mulheres, do Ministério das Mulheres, Igualdade Racial e Direitos Humanos, desde 2005.
O Ligue 180 funciona 24 horas, todos os dias da semana, inclusive finais de semana e feriados, e pode ser acionada de qualquer lugar do Brasil e de mais 16 países (Argentina, Bélgica, Espanha, EUA (São Francisco), França, Guiana Francesa, Holanda, Inglaterra, Itália, Luxemburgo, Noruega, Paraguai, Portugal, Suíça, Uruguai e Venezuela). Desde março de 2014, o Ligue 180 atua como disque-denúncia, com capacidade de envio de denúncias para a segurança pública com cópia para o Ministério Público de cada estado. O Ligue 180 é a porta principal de acesso aos serviços que integram a Rede nacional de enfrentamento à violência contra a mulher, sob amparo da Lei Maria da Penha.

 

 

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