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Algumas considerações sobre a adaptação cinematográfica por JANIO DAVILA

A discussão sobre a adaptação de textos literários para as telas do cinema é um daqueles assuntos que não morrem. Toda vez que um best-seller é adaptado para o cinema, o assunto ressurge com toda força, tanto nas mesas dos bares, quanto entre os formadores de opinião da crítica especializada. Ouvimos e lemos todos os tipos de opiniões sobre o tema, muitas vezes lugares comuns, outras vezes, textos com forte embasamento e consistência argumentativa. Acredito que todos os pontos de vista devam ser respeitados. Não podemos deixar que discussões sobre arte sejam monopolizadas por alguns poucos iniciados.

Nesse texto, tentarei não evidenciar a minha opinião sobre o assunto, mas sim, fixar algumas bases para que o assunto possa ser discutido com mais clareza em outras ocasiões. (Perdoem a pretensão deste autor de querer ser referência em alguma discussão). Para isso, começarei por estabelecer alguns pontos concretos e que passam menos por uma questão de opinião. Pontos que já podem ser considerados fatos.

Primeiramente, é importante lembrar, que a adaptação não é algo moderno. Ela já pode ser encontrada na antiguidade. As tragédias gregas clássicas nada mais eram do que adaptações dos mitos já conhecidos pelos cidadãos da pólis grega. Nenhum grego se dirigia ao teatro para assistir ao Édipo Rei com medo de spoiller. Todos ali já sabiam quem era o assassino de Laio. Ninguém ignorava que Édipo era filho de Jocasta. O interesse do espectador se concentrava em como Sófocles organizaria a encenação dessa história.

O segundo ponto é que as obras adaptadas correspondem a uma parcela bem maior da produção cinematográfica do que o grande público imagina. Embora muitos dos apreciadores da sétima arte pensem que os filmes adaptados correspondam apenas àquelas obras que se originaram de best-sellers, a verdade é que grande parte dos roteiros são adaptados. Na esmagadora maioria das vezes, de livros totalmente desconhecidos do grande público. Você sabia que o clássico Psicose, de Alfred Hitchcock é uma adaptação de um romance de Robert Bloch? O Poderoso Chefão, de Francis Ford Copolla é adaptação de um belíssimo romance do italiano Mario Puzo. O que seriam desses livros se não tivessem ganhado uma versão de sucesso no cinema? Provavelmente, você e eu não teríamos ouvido falar de nenhum deles. Talvez nem tivessem ganhado tradução para o português. Proponho um exercício. Preste atenção na lista dos filmes que concorrem à categoria de “melhor filme” nas edições do Oscar. Depois confira quantos deles concorrem também à categoria de “melhor roteiro adaptado” e quantos concorrem a “melhor roteiro original”. Hoje, quando você for assistir a um filme na Netflix, dê uma pesquisada antes. Há grandes chances de a obra escolhida ser uma obra adaptada.

Por fim, o terceiro ponto. Talvez aqui resida o maior grau de subjetividade. A questão é: o autor do filme é o diretor, e não o autor do livro. Segundo Linda Hutcheon, em seu livro Uma teoria da adaptação, a adaptação tem seu valor como obra de arte, sem ser secundária ou inferior. Assim como toda obra artística, a adaptação tem seu valor criativo, interpretativo e intertextual, estabelecendo um diálogo com a obra adaptada, sem que por sua “derivação” fique em segundo plano. Logo, o filme é uma outra obra. O diretor, teoricamente, deveria ser livre para criar sua própria obra. Claro que sabemos que na prática não é bem assim. Existe uma figura chamada produtor e este, geralmente, está bem preocupado com a opinião do público, afinal de contas, a grana investida é a dele. Todo este terceiro ponto é para dizer o quê? Que a adaptação cinematográfica não tem obrigação nenhuma de ser fiel. O diretor e o roteirista, como senhores da obra, têm, evidentemente o direito de serem fiéis ao texto, no entanto, não tem a obrigação. Vocês sabiam que a maior parte das obras do gênio Stanley Kubrick são adaptações? Leiam os livros que originaram seus filmes e tirem as suas próprias conclusões sobre fidelidade ser critério de qualidade.

Apresentei estes três pontos apenas para situar um pouco a discussão. Na academia, quando se trata de estudos interartes, adaptação é uma das áreas que mais gera trabalhos. Não deixa nunca de despertar o interesse dos aficionados por cinema e literatura. Logo, com centenas de trabalhos sendo produzidos todo ano sobre o assunto, obviamente, meu pequeno texto não passa de uma humilde tentativa de fomentar mais reflexões sobre a adaptação.

 

 

JANIO DAVILA é natural de Santa Maria, RS. Graduou-se em Letras – licenciatura em português e literaturas de língua portuguesa pela Universidade Federal de Santa Maria, mesma instituição onde faz mestrado em Estudos literários. Sempre teve o sonho de ser escritor. Após descobrir que não sabia escrever, decidiu se tornar professor de literatura e ensinar aos outros como se faz.

A discussão sobre a adaptação de textos literários para as telas do cinema é um daqueles assuntos que não morrem. Toda vez que um best-seller é adaptado para o cinema, o assunto ressurge com toda força, tanto nas mesas dos bares, quanto entre os formadores de opinião da crítica especializada.…

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