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A Torre por MARCELO VALLE

Me lembro daqueles homens sem nome, de cabeça raspada a caminhar com suas roupas rotas na beira da estrada.

Pra quem não sabe, Barbacena é minha terra natal, lugar em que vivi até completar 12 anos. Lugar que vive em mim, inventado e reinventado entre loucos e rosas. Ali, as rosas voavam e os loucos criavam raízes. Explico: as rosas eram pra exportação e os loucos eram importados, vindos de todo canto, vindos dos Gerais. A princípio vinham de trem, trem de doido. O Hospital é enorme, sempre foi, existia há tempos antes de eu existir, praticamente uma pequena cidade cravada na cidade, ocupando duas áreas relativamente distantes uma da outra. O manicômio é tão grande que até hoje ocupa parte de meu imaginário. Todos os domingos a caminho da casa de minha vó, em São João Del Rey, costumávamos passar na frente do velho hospital,  que  a gente  simplesmente chamava de “colônia”.
Me lembro daqueles homens sem nome, de cabeça raspada a caminhar com suas roupas rotas na beira da estrada. Erabarbacena13 comum. Não me lembro se eram homens de fato ou se eram mulheres. Me lembro das cabeças raspadas, da beira da estrada, dos uniformes rotos. Me lembro dos rostos rotos na estrada uniforme. Sempre à beira, os loucos. Eram loucos? Não me lembro.

De um ponto da estrada dava pra ver a torre distante.

Frio. Frio de maio, frio de julho, uniformes rotos. Na minha cabeça de criança aqueles homens viviam escondidos na torre em frente ao Parque de Exposição.   Manicômio, enorme manicômio que vive na cabeça da gente.  Torre pequena,  quanta gente cabia ali?

 

14249050_1145642305492925_25443488_nMARCELO VALLE

É fotógrafo, comunicador e deseducador. Mestre em Comunicação, na linha de pesquisa em Mídia, Cultura e Produção de sentido. Desde 2000 trabalha em diferentes projetos sociais em comunidades de baixa renda, tanto na área rural quanto urbana. Participou de diferentes projetos centrados nas possibilidades e usos de diversas mídias (vídeos, cinema, fotografia, jornais e rádio) nos processos de aprendizado, unindo comunicação e educação, incluindo uma interação e troca de conhecimentos com profissionais de diferentes áreas, psicólogos, antropólogos, cientistas sociais, educadores, cineastas, para elaboração de conteúdo, metodologias e formas de avaliação. Atualmente coordena o Núcleo de Cultura, Ciência e Saúde do Instituto Nise da Silveira no Engenho de Dentro, Rio de Janeiro.

Me lembro daqueles homens sem nome, de cabeça raspada a caminhar com suas roupas rotas na beira da estrada. Pra quem não sabe, Barbacena é minha terra natal, lugar em que vivi até completar 12 anos. Lugar que vive em mim, inventado e reinventado entre loucos e rosas. Ali, as…

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