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Foto de RyanMcGuire (em Pixabay)

A mulher que cansou de ter calos POR MELINA GUTERRES

…todos estranhavam a mulher que cansou de ter calos..

Silvana acordou de mau humor, naquele dia não chorou na frente do chefe que a humilhava, cuspiu na cara dele, tirou o salto e foi andando de pés descalços até o elevador. Sequer olhou para trás. Cansou daquele emprego e daquele salto alto que era obrigada usar. A moça do elevador estranhava, o segurança do prédio, o povo da portaria, as pessoas na garagem, todos estranhavam a mulher que cansou de ter calos. Ligou seu carro, deu o melhor suspiro de alívio dos últimos séculos, teve a certeza de que para lá nunca mais voltaria. Seu celular não parava de tocar, então, desligou e o tocou pela janela. Já fazia tempo que queria mudar de aparelho e se livrar daquela agenda de pessoas enjoadas. Dirigiu até o banco para conversar com o seu gerente. Ao descer do carro uma senhora lhe questionou por estar descalça.

– São meus calos…

– Mas, e você não tem um chinelo?

– Hoje preciso sentir o chão como ele realmente é!

Silvana seguiu e, por alguma razão qualquer, ninguém no banco reparou em seus pés. Talvez estivessem preocupados demais com o dinheiro. Finalmente sentou na frente do gerente, tirou todas as suas dúvidas de como investir em um negócio próprio e, dali mesmo, foi até o escritório de uma contadora indicada e começou a organizar a papelada. Parou na primeira loja de celular  que viu. Comprou o aparelho que sempre quis, um chip cheio de números cabalísticos e ligou para sua amiga advogada, aquela de infância cujo número sempre decora.

– Sabe aquela história de assédio moral no meu trabalho? Mete ficha!

Desligou e dirigiu até o spa mais próximo, parcelou a estadia de dois dias em 5x, uma podóloga tratou seu calos, e quando deitou na maca para uma massagem relaxante escutou um afetivo:

– Bem vinda Silvana, um feliz 2018, tenho certeza que escolheu a melhor maneira de começar o ano: cuidando de si mesma.

Silvana sorriu, sentiu confiança e capotou. Afinal, sentir um pouco de confiança era o que ela mais precisava. Relaxou. Meses depois, já com os calos curados, soube de outras colegas que tiraram os sapatos. Parece que virou praxe… E ela já estava a ganhar mais com seu negócio próprio do que o salário do seu infeliz chefe.

Melina Guterres é criadora e editora do site Rede Sina. Autora e administradora de fan pagens e grupos de diferentes  segmentos e causas. Como consultora em comunicação, cria e  gerencia campanhas à pessoas públicas nas redes sociais. Durante a tragédia da boate Kiss em Santa Maria-RS, fez cobertura para Uol, Estadão e Folha de São Paulo a qual eventualmente presta serviço. Como jornalista pesquisou sobre a ditadura militar no Brasil e América Latina  que resultou na produção de seu primeiro roteiro de ficção de longa-metragem “Clandestinos”  selecionado entre 35  países pelo argumento  no Programa Ibermedia em 2009.  Faz parte da ABRA- Associação Brasileira de Autores Roteiristas. Foi Jurada do Rota Festival de Roteiros do Rio de Janeiro e I Festival de Cinema Estudantil – CINEST em Santa Maria-RS. Em 2017 iniciou curso de interpretação para cinema no Studio Fátima Toledo, assistiu disciplinas sobre questões de gênero na pós-graduação da comunicação e teatro da USP.  É gaúcha de Santa Maria, já morou na Bahia, Pará, Rio e SP. Também é poetisa, blogueira, ativista social, feminista em construção e com muito orgulho. No momento pesquisa sobre assédio no trabalho. Mais sobre a Melina em: www.melinaguterres.com
...todos estranhavam a mulher que cansou de ter calos.. Silvana acordou de mau humor, naquele dia não chorou na frente do chefe que a humilhava, cuspiu na cara dele, tirou o salto e foi andando de pés descalços até o elevador. Sequer olhou para trás. Cansou daquele emprego e daquele…

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