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Foto: Trabalho do fotógrafo Steve McCurry, em seu livro On Reading. Fonte: Steve McCurry/Magnum Photos

5 autores para ler antes de falar mal da literatura brasileira contemporânea por JANIO DAVILA

Para muitas pessoas, a literatura brasileira contemporânea sofre de dois problemas. O primeiro é ser brasileira, o segundo é ser contemporânea. Eu discordo. Acredito que tal preconceito, existente também em outras artes, se deve muito à falta de conhecimento que temos em relação a nossa própria cultura. Ao final do texto, farei uma breve lista com cinco nomes da literatura produzida no brasil, atualmente, que merecem ser lidos com atenção. Acredito que só após ler tais autores, estremos autorizados a dizer que “literatura brasileira contemporânea não presta”.

Todo mundo já ouviu falar no famigerado complexo de vira-lata do brasileiro. Segundo tal lógica, nossa literatura, assim como a nossa música, nosso cinema, e nossa arte em geral, está muito abaixo do padrão americano e europeu. Para que algum artista ganhe algum real prestigio aqui, é necessário o carimbo de qualidade de algum gringo. O argumento de que algum crítico ou artista estrangeiro admira, ou de que alguma obra ganhou um prêmio internacional, sempre funciona muito bem como argumento em qualquer discussão. Se o gringo admira, só pode ser bom. O desconhecimento da cultura nacional, que mencionei no inicio do texto, pode ser muito bem ilustrada com uma cena que presenciei quando eu trabalhava em livraria. Determinado dia, um casal de estudantes entrou na loja e se pôs a folhar livros. Os dois examinavam sem muito interesse uma prateleira giratória de livros de bolso, até que a menina pegou um exemplar de uma antologia do Fernando Pessoa e mostrou ao rapaz, fazendo a seguinte pergunta: “Você já leu ele?” O menino sem hesitar respondeu: “Bem capaz. Me recuso a ler coisa brasileira”. Precisa exemplo melhor? (Para quem desconhece, Fernando Pessoa é português).

Aquela minoria que consegue escapar do desprezo pelo nacional, muitas vezes não consegue fugir de outra epidemia que parece se alastrar cada vez mais: o saudosismo. Costumo chamar de “a febre do antigamente”. “Antigamente, a’ música que tocava no rádio era melhor”. “Antigamente, os atores sabiam atuar”.  Antigamente, sabia-se escrever bem. Antigamente… Antigamente…. Antigamente… Também exemplificarei esse ponto. O maior crítico literário brasileiro da história, o nosso saudoso Antônio Cândido, também já caiu na armadilha do saudosismo. Em uma entrevista concedida à jornalista Joana Tavares, do Brasil de Fato, Cândido declara “Estou afastado de todas as novidades há cerca de 30 anos. Não me interesso por literatura atual. Sou um velho caturra. Já doei quase toda minha biblioteca, 14 ou 15 mil volumes. O que tem aqui é livro para visita ver. Mas pretendo dar tudo. Não vendo livro, eu dou. Sempre fiz escola pública, inclusive universidade pública, então é o que posso dar para devolver um pouco. Tenho impressão que a literatura brasileira está fraca, mas isso todo velho acha.” Ora, reside aí uma contradição. Se não se interessa pela literatura atual, como sabe que é fraca? Nem os intelectuais gigantes conseguem escapar da febre do “antigamente”.

Feitas tais considerações, farei uma pequena lista com cinco nomes que vêm se destacando na produção literária nacional. O próprio conceito de contemporâneo é problemático. Alguns defendem que o recorte deve ser temporal, outros defendem que o contemporâneo é encontrado em aspectos estéticos. Não entrarei na questão. Apenas destacarei alguns nomes que, acredito, merecem ser lidos com mais atenção. Deixarei de fora da lista nomes como Rubem Fonseca, Sério Santa’Anna, LygiaFagundes Telles, entre outros, pois, apesar de ainda estarem produzindo, já são autores consagrados, que qualquer pessoa já deve ter lido antes de emitir algum juízo sobre a literatura brasileira atual

 

Foto: Lourenço Mutarelli.  Fonte: Divulgação/Cia das Letras

Lourenço Mutarelli (1964). O primeiro nome da lista é o de um artista multimídia. Mutarelli é escritor, dramaturgo, ator e quadrinista. Embora seu nome seja pouco conhecido, muitos já tiveram acesso a sua obra de forma indireta. Seu romance mais famoso, O cheiro do ralo (2002), foi adaptado para as telas, de forma brilhante em 2007, por Heitor Dhalia, e estrelado por Selton Melo. A obra do autor é marcada por muitas trocas semióticas e recheada de referências à cultura pop.  Seu romance, Natimorto (2009), por exemplo, é um romance sem prosa. Sim. Um romance sem prosa. A obra se desenvolve com diálogos e rubricas como numa peça de teatro, além de trechos versificados e muitos desenhos.

 

 

 

Foto: Veronica Stigger. Fonte: Divulgação/Cosac Naify

Veronica Stigger (1973). A autora gaúcha produz uma obra que é de deixar qualquer leitor de gosto conservador de cabelos em pé. Stigger transita pelo conto, romance e teatro, apesar de que tal enquadramento se deva mais a nossa necessidade de classificar a literatura em gêneros. Muitas das narrativas de Veronica vão bem além dos gêneros tradicionais, resultando em textos originais e muito interessantes. Sua obra também flerta com a publicidade, a cultura pop, e, algumas vezes, carrega uma boa dose de escatologia. Destaco aqui sua primeira obra, o livro de contos O trágico e outras comédias (2003), e seu livro, Os anões (2010). Bem… Não vou tentar classificar os textos de Os anões. Leia e tire suas próprias conclusões.

 

 

 

Foto: Conceição Evaristo. Fonte: Richner Allan

Conceição Evaristo (1946). Apesar de ter estreado na literatura em 1990, foi só nos últimos anos que a academia e a crítica especializada passaram a olhar com mais atenção para a belíssima obra da autora mineira. Negra, nascida em uma favela de Belo Horizonte, a escritora produz obras em que tematizam a descriminação social, racial e de gênero. Em 2007, parte de sua obra ganhou tradução para o inglês e foi publicada nos EUA. Conceição escreve conto, poesia e teatro. São dois livros de contos, Insubmissas lágrimas de mulheres (2016) e Olhos d’agua (2014), que destaco aqui.

 

 

 

Foto: Bruna Beber. Fonte: Rafael Roncato

Bruna Beber (1984). Diferentemente dos nomes anteriores, que transitam entre os diferentes gêneros textuais, Bruna Beber se dedica, exclusivamente, à poesia. Na era das redes sociais e dos blogs, em que muitos passaram a achar que fazer poesia é apenas escrever um diário na forma de versos, Beber experimenta com a linguagem de forma muito interessante, explorando as possibilidades que a língua e a página do livro oferecem (como toda poesia deve fazer). Basta prestar atenção nos versos “A cabeça mói/é dia corrido/na região do pescoço”, presentes no livro Ladainha (2017) para se ter noção da criatividade da poeta.

 

 

 

Foto: Chico Buarque. Fonte: Divulgação/Cia das Letras

Chico Buarque (1944). Embora já provada sua genialidade na canção popular e o seu reconhecimento como dramaturgo nos anos 70, foi só a partir dos anos 2000 que Chico passou a ser reconhecido também como romancista. Não que ele tenha estreado como romancista nesta década. Seu primeiro romance, Estorvo, é de 1991. Também escreveu Benjamim em 1995. Porém, foi o romance Budapeste que trouxe reconhecimento ao Chico Buarque romancista. O livro levou o prêmio Jabuti de 2003 na categoria melhor romance. Em 2009, voltou a levar o prêmio com Leite derramado. Seu último romance, O irmão alemão (2014), é inspirada em uma história real, de quando Chico descobre que seu pai deixou um filho na Alemanha, na época em que estudou no país europeu. O último livro não levou o Jabuti, mas em 2017, o autor foi aclamado com o prêmio francês Roger Caillois, na categoria literatura latino-americana, pelo conjunto de sua obra.

 

 

Boa Leitura!

 

 

 

JANIO DAVILA é natural de Santa Maria, RS. Graduou-se em Letras – licenciatura em português e literaturas de língua portuguesa pela Universidade Federal de Santa Maria, mesma instituição onde faz mestrado em Estudos literários. Sempre teve o sonho de ser escritor. Após descobrir que não sabia escrever, decidiu se tornar professor de literatura e ensinar aos outros como se faz.

Para muitas pessoas, a literatura brasileira contemporânea sofre de dois problemas. O primeiro é ser brasileira, o segundo é ser contemporânea. Eu discordo. Acredito que tal preconceito, existente também em outras artes, se deve muito à falta de conhecimento que temos em relação a nossa própria cultura. Ao final do…

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